ROMILDO SANT'ANNA
Sobre naïfs e que tais

Estabeleçamos que uma pintura disforme ou mal enjambrada não aponta em absoluto para o artista naïf. Na mais das vezes e comum hoje em dia, a figuração tosca revela um pretenso pintor que não sabe pintar e, fantasioso, insiste numa fabricada e maneirosa ingenuidade. Amiúde, o suposto artista carece de um dom fundamental a uma pequena parte dos humanos: ser artista.

Estou a me lembrar duma passagem de “Dom Quixote”. O velho e sábio (e às vezes mordaz) cavaleiro andante narra que conheceu alguém que pintava tão mal que, quando rabiscava um galo, tinha que escrever embaixo: “isto é um galo”. Decerto, Cervantes escarnecia duplamente de um de seus desafetos, pois, além de aludir ao mau pintor, via-o como ignorante, pois “isto [não] é um galo”, mas pintura dum galo.

Aproximam-se de naïf atributos da ingenuidade. Em “Sobre poesia ingênua e sentimental”, F. Schiller proclamava que “ingênuo é representação de nossa infância perdida, que fica em nós como o que há de mais querido, e por isso nos enche de certa nostalgia”. Porém, indago: não se incluiriam nesse rol tantos magníficos artistas, de Fídias a Gaudí e Charlie Chaplin, de Eurípedes e Chagall a Tom Jobim?

Então, aqui e agora, quem seria um naïf ou primitivista? Um ser isolado da chamada civilização, vivendo recluso em utópica maloca? Um expoente etnocultural imune ao contágio dos brancos, às influências das mídias e sociedade em rede, e que tudo vê com o nativismo e estranhamento dum indígena? Ou o ser em estado puro, um simplão antropológico e arteiro? Nada disso, porque esse “bom selvagem”, se existiu, não mais existe.

Artista naïf, antes de tudo, tem que ser artista. Desprovido dos saberes consagrados, inda assim, é um artista. Não indexado às tendências dominantes da arte, mesmo assim, um artista. Relativamente privado do saber comparativo, um artista. Autodidata intuitivo, sensorial e leigo, artista. Inventando os próprios meios e reinventando maneiras, artista. Privilegiando sua aldeia e sendo-lhe singelo porta-voz, artista. Simplório na exposição linear (muitas vezes curvilínea), prosaica e popular, e, grosso modo, enfocando o cotidiano, artista. Transgressor de códigos visuais e ritmos no espaço, o artista.

Há no naïf uma saturação de cores e vivazes enfeites. Se, por um lado, congrega o calor geopolítico e sincretismo cultural brasileiros, por outro, estremece-lhe o afã de dizer muitas coisas simultaneamente, com jeito de última vez, devido, quiçá, à sensação de marginalidade que lhe é imposta. Por isso, a sobreposição de vozes no interior da pintura, o uso exagerado de formas, texturas e atrativos afunilando-se, polifonicamente, numa mensagem em que as partes se costuram em incomum harmonia.

Esse mundo de reminiscências, a sublimação do simples e simplicidade do sincero, essa empatia com a vida rural e suburbana, as evocações à terra perdida (somos a união de povos desterrados), essas imagens sinalizam o artista naïf. Fora disto, ilusórios pintores que se fazem, eles-mesmos, pitorescos. E fomentados por oportunistas circundantes que mal discernem sobre as artes e artistas.

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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