ROMILDO SANT'ANNA
Pequeno manifesto sobre a cultura

Em 1928, Oswald de Andrade bradou curiosa paródia à hesitação de Hamlet: “Tupi, or not tupi, that is the question!”. Em seu manifesto de há 80 anos, o modernista brasileiro levantava-se contra os “importadores de consciência enlatada” e propugnava a adequação das influências estrangeiras ao nativismo da nossa cultura. Só assim, deixando de ser meros imitadores do de fora, produziríamos o genuinamente nosso. Isto, mormente hoje, reveste-se de oportuno estímulo à meditação.

Há nomeados oficiais que parecem desconhecer até mesmo o conceito fundamental de cultura. Ocupando cargos, acham suficiente a promoção de “eventos artísticos” (a maior parte assim, entre aspas) para cumprirem a função de agentes culturais. Nem se atêm a que ela fomenta a consistência ideológica dos seres: Sentimento de justiça, detalhes do convívio e mesmo o jeito como se recorre ao místico e à medicina. Com base nela decidimos em quem votar, por quais veredas seguiremos e até forjamos o gosto para o que achamos bonito. Contentar-se com um monte de eventos desarticulados e ornamentais é demonstrar-se avesso a um projeto cultural.

O geógrafo Milton Santos, com o refinamento dos eruditos maiores, afirmava que cultura são as heranças do passado, modos de ser do presente e aspirações do porvir.  Só assim, refletindo a sociedade em seu meio, previne-a contra a deformação e dissolução da identidade. Defendia respeito ao itinerário histórico brasileiro e à originalidade mestiça de nossos bens simbólicos como fatores de cidadania, apesar das seduções tentaculares do mundo globalizado.

Nos dias que passam, com o implemento espetacular das comunicações e das inter-relações à distância pela sociedade em rede, é difícil auscultar o que seja essencialmente local, regional, nacional e transnacional. Ademais, em muitos aspectos, colocam-se como decisivas as aspirações do mercado, ou seja, cultura usada como mercadoria e controle social. Disforme, é bom que ela se despersonalize, moldando-se aos anseios medianos de mais compradores.

Países engajados no “ser ou não ser, eis a questão” de seu povo têm-na com empolgante apreço. Percebem que a desfiguração da cultura põe em xeque a auto-estima e a soberania. Cuidam para que as cidades, nos contextos regionais, sejam de fato as pilastras humanas da fisionomia nacional. Sabem que o estilhaçar das culturas locais gera desenraizamento, ruptura com os valores e extinção dos liames com o passado. Isto, como acontece amiúde por aqui, é um dos estopins da violência e desatinos.

É necessário, como pressuposto antropológico, que os viventes dum município se sintam pertencentes fraternos a seu local. Só assim prezam e tratam com zelo as cidades como “minha terra”, diferentemente dos não-lugares ou das terras de ninguém. Lideranças políticas esclarecidas não fazem da cultura uma repartição geradora de “consciências enlatadas”. Têm-na como conjunto de atividades formadoras, etnológicas, estéticas e libertárias. Vêem-na como pedra angular e patrimônio vivo dos sonhos e das crenças. Agora, sobretudo agora, responsabilizar-se por ela é pensar no futuro.

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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