ROMILDO SANT'ANNA
José Martí

O amigo contou que Cuba é o último país em que pensaria em visitar. Semelha à indisposição de tantos. “A Ilha” de inalcançáveis estrelas, e cintilante no romance-reportagem de Fernando Morais, parece pobre, etc; ultrajada pelo embargo econômico, etc; teima viver num estado pretérito, etc. Mas nela persiste o “vergel primoroso” da dignidade; respira, depois que o sonho acabou. Aqui me vejo, em Havana, “na beleza deste céu, onde o azul é mais azul”, como na exortação de David Nasser em “ Canta, Brasil”. Rumores e cores nos enlaçam!

De Cuba, recebi o prêmio “ Casa de las Américas ”, proeminente na América Latina, outorgado também a João Antônio, Chico Buarque, Dinorath do Valle, Antônio Callado... A tradução de meu livro “Silva, cuadros y libros – un artista guajiro” [ caipira] é lida e admirada por aqui e em outros países. No Brasil, o original em português foi considerado “ pouco comercial” pela editora como e, em consolo, acatei o convite do Mec para disponibilizá-lo como “de domínio público” ( www.dominiopublico.gov.br). Que diferenças de interesse, zelo e respeito!

Quiçá devido à contra-informação imperial a alastrar aversões, poucos escritores cubanos nos chegam. Em raras estantes, Nicolás Guillén (A roda desdentada), Alejo Carpentier ( Concerto barroco), José María Heredia (A imortalidade) e Cabrera Infante ( Três tristes tigres). De José Martí, um dos principais alvores do modernismo em língua espanhola, sabemos de cor algumas estrofes, mas não as associamos ao autor.

Quem não conhece “ yo soy un hombre sincero, de donde crece la palma, y antes de morirme quiero, echar mis versos del alma”? Ou “ mi verso es de un verde claro, y de un carmín encendido, mi verso es un ciervo herido, que busca en el monte amparo”? Situam-se, ao lado da “ Aquarela do Brasil”, entre as músicas hispano-americanas mais ouvidas no planeta: “Guantanamera”.

Martí, escritor e jornalista é, com Simón Bolívar, herói da independência e símbolo da sonhada unidade latino-americana. Morreu em combate aos 42 anos. Inspirador de ideais humanitários em infindos corações pelo mundo, propugnava que “é preferível o bem de muitos à opulência de poucos” e ensinava: “A liberdade jamais morre das feridas que recebe; o punhal que a fere leva a suas veias novo sangue”.

Mas quem vê no escritor um temperamento áspero e belicoso, engana-se. Foi a docilidade em pessoa, e suas palavras congregam um ato de crença nos afetos mais singelos: “ Cultivo uma rosa branca, em maio como em janeiro, para o amigo sincero, que me dá sua mão franca. E para o cruel que arranca o coração com que vivo, cardo nem urtiga cultivo: cultivo a rosa branca.”.

Como iluminado artista, a limpidez de seus versos exprime o afã que não separa a arte do existir individual e coletivo. Confiante nas transformações para o bem, medita: “ Tudo é formoso e constante, tudo é música e razão, e tudo, como o diamante, antes que luz é carvão”. O poeta havanês sintetiza a alma cubana em signos e gestos, no “ ritmo criollo”, nas louvações à vida e à fé. Conhecê-lo e a seu país é um privilégio (José Julián Martí y Pérez, 1853 - 1895).

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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