ROMILDO SANT'ANNA
Historinha italiana

Por mais que se escreva, é pouco para desvendar os percalços afetivos e choques de identidade por que passaram os imigrantes na história recente. Em São Paulo, espalhando-se à direita de quem desce o Tietê, os italianos eram só um caldo de esperança. Nos alvores do século 20, desembarcaram em Santos mais de 400 mil. Vieram com o sonho de “fazer a América”, mas substituíram o braço escravo nas fazendas. Os das cidades, em ocupações servis (como os sírios e libaneses), eram tratados como “carcamanos”, devido à má fama de “calcar a mão” alterando as balanças.

Vindos de aldeias pobres do Norte e Centro-sul da península, e vistos como macarrones e polenteiros, suaram para arrancar da terra a comida e restos de dignidade. Na guerra, a segregação os obrigava a mendigar salvo-conduto quando iam dum lugar a outro; na paz, abraçaram-se aos daqui e se acaipiraram. Um amigo contou-me que os documentos de seu bisavô o identificavam como “escritor”. Custou entender que, no navio em que chegara, era o único que escrevia e lia cartas aos paisanos.

Conto uma história que me narrou Percival Tirapeli, sensível professor e crítico de arte. Convivemos muito tempo por leituras recíprocas e singelos favores, sem nunca nos vermos pessoalmente. No encontro, gestos de proximidade só possíveis numa terra cerzida com retalhos de ausências e saudades. Relato-a e, talvez, acrescente uma tinta a mais no quadro que evoca o caráter desses imigrantes.

O nono Nardo – confidenciou-me Percival – está sepultado com o primo Ambrósio num lugarejo conhecido pelas águas claras, na língua dos índios, Guapiaçu. Tinha estudo, era bonito, lia jornais e ensinava às crianças da colônia. Prosperou com uma pequena gleba, autorizado a comprar após alguns anos no Brasil. Pena que, quando a nona morreu, muito jovem, como não havia cemitério na vila, ela foi para Cedral, longe da família. Sua filha, minha mãe, desde pequena não teve quem lhe penteasse os cabelos.

Nos anos 40, o avô teve que voltar à Itália pra se tratar do nó nas tripas. Reencontrou-se com os parentes e lhes trouxe o couro duma enorme sucuri. Virou senha familiar. “ Que terra é essa em que se arranca toco misturado com cobra e não se tem onde enterrar a nona?”. Não houve resposta. Acrescentou notícias: Há meses, como a sobrinha estava demorando na parição, o marido espanhol deu-lhe um soco na barriga pra descer a criança. Cristina morreu.

Dia desses, Percival esteve na Itália pra regularizar a dupla cidadania. Não foi difícil chegar a Oderzo, perto de Veneza e encostado em Treviso, a terra dos antepassados. Fazia muitos graus abaixo de zero e mal distinguia, entre as noções baralhadas na cabeça, a paisagem diluída em névoas.

A casa ficava num aluvião, defronte e saudosa como a estação do trem que derrama na Áustria. Bateu e uma velha senhora saiu à porta. Falou com detalhes sobre o nono Luigi Nardo, mas ela quis saber da senha. Indagou severa: “O que ele trouxe quando veio aqui?”. “A pele da serpente!”. Abraçou-o italianamente e, como se o tempo houvera estancado, o convidou: “Entra, filho, a minestra tá na mesa!”.

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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