ROMILDO SANT'ANNA
O barbudo
Numa coleção chamada “Barbudos” e editada na França, a iconografia cubana mostra três heróis de seu povo: o sorridente Camilo Cienfuegos, o quixotesco Guevara e Fidel Castro. Este discursa em Harvard, aparece na guerrilha e fuzil, ou fala a encantadas multidões. 

Diz a lenda que, ao entrar triunfante em Havana, uma pomba pousou em seu ombro. Era Obbatalá, o orixá criador da terra, dos pensamentos e dos sonhos. Foi em janeiro de 59.

Acusam-no de ter levado muitos ao “Paredón” para a execução sumária. Esses mesmos são tolerantes com países acima do bem e do mal e que, inda hoje, praticam a pena de morte. Em lugares não remotos, malfeitores e ladrões procriam como pragas, engordam-se da miséria e se mantêm no poder. Há mil interpretações de que “guerra é guerra”.

Amado e respeitado, mesmo pelos que o odeiam, Fidel é a figura política mais sedutora das últimas décadas. Onde quer que chegasse, sempre envergando a velha “guerrera” e o boné verde-oliva, roubava a cena. Vê-lo era estar defronte de uma lenda viva, era sentir pulsante a sobrevivência do sonho inacabado. Um século termina ao encerrar-se uma era. Terminou ontem o século 20. O deus-afro Obbatalá se recolhe, decerto numa barbearia.

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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