ROMILDO SANT'ANNA
Em palpos de aranha

Uns dizem que o português é fácil. Bastam boas e constantes leituras, atenção, bom gosto, competência gramatical e, se possível, conhecimentos de etimologia (ciência que estuda a origem e evolução das palavras) e alguma noção de grego e latim. Outros afirmam que é difícil exatamente por pressupor os quesitos que o tornam fácil: leitura, refinamento e informações. Caramba, nossa língua é difícil!

Um amigo, caprichoso em português, ligou encasquetado: tô escrevendo a expressão “se me aprouver” e, de repente, indaguei: que verbo é esse? Passou-me a batata quente. Hum, compadre, agora cê me pegou! A-prou-ver? Já estava a ponto de pedir ajuda aos universitários quando, num estalo, ocorreu-me “aprazer” (causar ou sentir agrado, deleitar-se) e, pimba!, verbo irregular, defectivo, no futuro do subjuntivo: se me aprouver, quer dizer, se me der gosto. Que alívio!

Outro amigo, promotor de justiça, achou-me no celular. Tô fazendo uma petição e fiquei na dúvida. Como se que chama o camarada que tem tara por pés? Nessas horas, pra fazer bonito, tem-se que ser ágil. Pensei logo: “pedófilo”. Mas usa-se pedofilia como perversão sexual que leva um adulto a se sentir atraído por crianças. Fácil, vem do radical latino “paedo”, derivado do grego “paidós”, que significa “criança”. Daí “pediatra”, o médico da petizada, “ pedagogo”, o educador dos pequenos e o indivíduo “pedante”, que se comporta infantilmente e ao estilo desta crônica (com o perdão das criancinhas).

Mas, por que não “pedófilo” como o otário fissurado sexualmente por pés? Tá na cara. Originar-se-ia do latim “pes > pedis” ou, simplesmente, “ pé”. Daí o “pedestre”, o “pedicuro” que embeleza os pés, o “ pedal” que serve para abafar o som do piano ou tracionar a bicicleta, e mesmo o “ peão”, trabalhador rural que, até hoje, é um pé-descalço. Taí, certíssimo, “pedofilia”, a doideira por pés! Mas os dicionários o registram apenas como o desejo e fantasias eróticas com crianças, que se há de fazer?

Tarado por pés? Que tal “podófilo”, por analogia a “podômetro”, aquela geringonça que a juventude-saúde usa para contar os passos na caminhada diária, “podólogo”, profissional dos salões de beleza ou ramo da ortopedia que cuida do exame e tratamento dos pés. Legal, né? Porém a palavra “podófilo”, não constando dos dicionários, que juiz engoliria? Esquece! Abriria brechas aos intermináveis recursos advocatícios e sutilezas forenses, pois o indigitado seria um ortopedista, calista ou tarado? É, português é difícil!

Ontem , uma amiga me pegou de jeito. Expôs que seu cliente se identificou como “surfaçagista”. Eu trabalho no ramo de óculos, doutora! Surfaçagista com cê-cedilha ou dois esses? Ó nós, outra vez, em palpos de aranha! Na lista de ocupações do Ministério do Trabalho constam “surfaçagista” e “surfassagista” como o técnico em lentes de graus. Recomendei, por intuição, que grafasse com dois esses. Mas que não fosse surfar os dicionários. Perda de tempo. Despedi-me desejando-lhe, e a seu surfassagista, as boas tardes. Após, cocei a cabeça. Que diacho significa “em palpos de aranha”? Pô, eta lingüinha difícil! É o fim!

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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