ROMILDO SANT'ANNA

A educação e o novo presidente

Cristovam Buarque fez de seu postulado presidencial uma quixotesca cruzada pela educação. Sabe o ex-reitor da Universidade de Brasília que a instrução é a base de tudo. Ao indivíduo, a mais preciosa aquisição para o desenvolvimento da personalidade e aptidões, consciência crítica e vislumbre de si mesmo no horizonte social. É determinante para emancipação das correntes que o amarram ao atraso. Sabe Buarque que somente um plano educacional de grande porte e clarividência ajudará a sair do subdesenvolvimento encalacrado, injustiça, desequilíbrio regional e misérias materiais e morais que se alastram pelo país. Lembrando ilustres educadores como Paulo Freire e sua “ pedagogia da libertação”, usou o horário eleitoral como o paladino da transformação individual e coletiva em busca do mais sólido patrimônio que se possa ter: a educação.

Há dois candidatos em campanha eleitoral. Um mais que o outro, mas não tão diferentes, representam a esquizofrenia do fomento tolo à ignorância e “desescola”, de um lado, e a visão obtusa de uma filosofia educacional, de outro. No governo que expira, a incrível passagem de três Ministros da Educação em menos de quatro anos: Cristovam Buarque, demitido com deseducação por ser realista e honesto; Tarso Genro que, a pedido do presidente, abandonou o cargo pela ajuda a seu partido afundado na lama (equiparou a responsabilidade do Ministério ao PT); por fim, Fernando Haddad, educador ou quiçá mais um político, sobre o qual poucos sabem ao menos quem seja.

Em tempos de Lula, a demagogia tacanha da “democratização do ensino” permitiu a abertura de milhares de faculdades, em geral caça-níqueis de péssimo nível, disseminando a legião de despreparados e contentes com diplomas universitários. Aboliu-se o “provão” como instrumento disciplinador do ensino e pesquisa, tudo em beneplácito do interesse empresarial particular. Hoje, na aritmética contábil do lucro, são demitidos professores com mestrado, doutorado e livre-docência consolidando o disparate da desqualificação acadêmica em detrimento da ciência, tecnologia, cultura e o próprio ensino. Nos níveis fundamentais, prosseguiu o empobrecimento da escola pública, descortinando às crianças e jovens a escuridão do não-saber. Na era petista, nenhuma idiotia governamental, cinismo político ou banditismo partidário foram mais perniciosos que a besteira instituída em nome da educação.

Em linha contrária e minando o sistema em sua base, Geraldo Alckmin no governo paulista insistiu na parvoíce da “ progressão continuada”, rebaixando inda mais a instrução elementar. Alunos se desestimularam com a equivocada idéia da aprovação automática. Não se estuda, mas passa-se de ano. Aprovação a quê? Em favor de quem, senão à metáfora duma escola de lata? Imagine se essa usina de ornamentos estatísticos e pedagogia torpe são aplicadas em todo o país?

Buarque foi banalizado como o “ candidato de uma nota só”. Insistiu no mesmo bordão e obteve mais de 2,5 milhões de votos. Substancial parte dessa escolha simbolizou um clamor de socorro à educação. Com ela em desprezo, jamais teremos ordem, civilidade e progresso.

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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