ROMILDO SANT'ANNA
Victoria de mierda

a Humberto Sinibaldi Neto

Hugo Chávez, semana passada, injuriado com a derrota em plebiscito que lhe aumentaria o poder, traduziu, num resmungo teatral, o que lhe pareceu o triunfo da oposição: “victoria de mierda”. Inda quentes de hálito, suas palavras saltaram direto às manchetes, blogs e editoriais. Sublinhavam o destempero, mais uma histrionice chula e rude do protoditador.

Óbvio, o coronel não usou um vocábulo de boa casta, ou castiço e, aos olhos puritanos, talvez tenha descido outro degrau na escadaria dos “bons modos”. Porém, como de bobo não tem nada, valeu-se do termo vulgar, mas significativo no mundo latino e, poristo, francamente populista. Ouso afirmar que se fez simpático, outra vez vitimado pelo “imperialismo ianque” em sua agridoce Macondo.

Não chegam a ser incomuns certas palavras se desligarem do sentido original para assumirem valores periféricos. Desqualificando os adversários, e enfezado, Chávez remoia por dentro a sensação de que o resultado eleitoral foi desprezível, uma porcaria. “Mierda”, derradeira resposta do ancião desolado em “Ninguém Escreve ao Coronel”, de García Márquez, era de fato o que disse, e muito mais como expressão do indizível. Correlativamente, “mandar alguém à m*” não é imperativo de que o interlocutor vá mesmo, tampouco que marche em direção à coisa referida.

Nos anos de 1970, quando fazíamos teatro, m* figurava na lista das palavras malditas entre os censores ditatoriais, arautos da “moral e bons costumes”. Além de os textos serem vasculhados por olhos ávidos que os mutilavam, as encenações se submetiam a censura ao vivo.  Para isto, desembarcava não sei donde um tipo gordo em terno preto que dormia nas sessões. Porém, como um robô programado, estatelava os olhos ao ouvir um m*, um pqp e quejandos. “Como não vetaram isto em Brasília!” – resmungava.  Propúnhamos-lhe acordos: a barganha de 3 m* que sobraram por 1 fdp essencial numa cena. Ao assentir, festejávamos a “victoria de mierda”, com a sensação de que o censor bojudo e suado fizera-se o amigão da cultura e das artes, no teatro da vida.

“Merdre!”, desvio prosódico de “merde” em francês, e dita como exclamação, é a primeira palavra de “Ubu Rei”, de Alfred Jarry. Lacônica, sintetizava indignação com as tiranias de seu tempo, sinônimo do absurdo e estupidez nos túneis do poder. “Merdra!”, em português. O autor ficou marcado e sucumbiu pelo atrevimento da palavra, porém, a 101 anos da estréia, sua peça sobrevive.

São tabus nos camarins teatrais as saudações de “boa sorte”. Bate-se na madeira espantando-se o azar.  Para os bons augúrios, o elenco se abraça e invoca em bom som muita m* para todos. Explica-se a superstição por um fato singelo. Quando uma peça fazia sucesso, os visíveis sinais eram as dezenas de carruagens às portas do teatro. E ali, os cavalos deixavam seus excrementos, uns montes de m*, indicativos da longevidade do espetáculo.

Tudo teatro, palavras. Palavras ao léu, umas fortes, delicadas, outras mesquinhas. Em paralelo, a vida real não renega seus enredos, com personagens fortes, delicados ou mesquinhos. Esses últimos, irremediáveis, fedem.

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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