ROMILDO SANT'ANNA
Empurrando cavalinhos
a Paulo Betti

Parede-meia com a infância havia um terreno sem dono, incorporado ao patrimônio do nosso time. Sob a mangueira pousava um cavalo velho e pensativo. Só exultava ao avistar seu dono, o charreteiro a buscá-lo sempre em roupas de domingo. Vez em quando, cedíamos o campinho de bola aos circos-teatro e às quermesses da paróquia. Mas, bom mesmo era o parque de diversões. Chegava e esquecíamos dos duros certames desportivos e tornávamos sócios remidos da maior das maravilhas.

Alvoroço . Entre o coração partido e a curiosidade, espiávamos na barraca de lona a moça magra e tímida, filha de Amós, o dono do parque. Nunca ousamos perguntar que pecado cometera e a fazia transformar-se, às noites, numa Donzela Aranha coberta de tule. Com gestos, ofertávamos-lhe doces e frutas. Mas recusava baixando os olhos, porque talvez não lhe faziam bem. Foge daí! – alguém ordenava. E voltávamos ao rebuliço. Admirávamos a agilidade dos peões descarregando ripa e matula, cavando covas e construindo com folhas de zinco a toca triste da aranha.

Tinha carrinhos de algodão cor-de-rosa, o tiro-ao-alvo com espingardas de pressão, o alto-falante em que se ofereciam guarânias como prova de amizade, a roda-gigante com assentos estofados, os jogos de argolas e pescarias de prendas, barraquinhas de quitutes, jipes que acendiam luzes e as barcaças que oscilavam como pêndulos. Os casais se divertiam competindo em risos quem tinha mais força pra puxar a corda e avoar mais alto. Apostávamos nalguns.

De minha parte, gostava mesmo é do carrossel de cavalinhos. Inda no chão, não passavam de esculturas em madeira com crinas aventalhadas, bocas vivas e olhos rijos, pintados em cores do instinto. Quem não os visse como eu os vira, em evoluções eqüestres ondulantes, pensaria: jamais seriam os ginetes velozes pelos confins da terra conduzindo Rei Arthur, Carlos Magno e os pares de França. D. Quixote não os teria como o tenaz Clavilenho nas nuvens. Nem campeariam em bom galope com El Cid no outro mundo, ou levariam S. Jorge a nos espiar da lua. Amontoados, silentes, sequer lembravam o baio que falava consigo na mangueira e dormitava esperando seu dono.

Meu emprego temporário era empurrar cavalinhos. Sentia-me importante pois o esforço que fazia era o motor da ciranda de delícias como folguedos em valsas. Cuidava pra manter constante o trote ligeiro e via-me contente porque, na multidão de testemunhas, lá em cima, em solene cavalgada, alguns riam pra mim. Em recompensa, o ingresso grátis para os aviões de lata, além da amizade secreta com a Aranha Donzela.

Numa noite caí e as patas do tropel me feriram nas costas. “ Retira o pobre do monturo!” – gritou Amós. Daí, pela vida afora, jamais me encontrei comigo em terrenos baldios. Tudo tem dono, aprendi. Mas inda ouço, num alto-falante longínquo, um cavalinho de pau inservível, cantando sozinho, talvez se alembrando de mim: Onde estás agora, colibri, que teu suave canto não chega a mim? Onde estás agora, meu ser te implora com frenesi? Tudo te recorda, meu doce amor, junto ao lago azul de Ypacaraí. Tudo te recorda, meu amor te chama, colibri...

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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