ROMILDO SANT'ANNA
Dinorath e o trabalhador

Amanheceu morta num sábado, dia da criação.  Deixou na mesa o artigo de domingo.  Como abstração em desenho de seu rosto, os conformes de existir renderam-lhe reverência tirando-a do sofrimento no Dia do Trabalho, seu mais solitário feriado.

Poucos penetraram com tanta agudeza a alma em subúrbios de uma cidade pra desvelar os percalços da vida. Falando por imagens, seus relatos ao mesmo tempo em que denunciam injustiças, gritam solidariedade. Conjugando ficção e memória, auscultava o cotidiano, servia-se de notícias, reciclava os dramas domésticos para alcançar o cerne espiritual dos humildes, espiã dos corações angustiados.  Eis fragmentos de algumas obras as quais, como a incansável mulher, enfocam o trabalhador.

O conto “O Jeito” (“Idade da Cobra Lascada”) é lacônica tragédia de um desempregado.  Preso por enterrar o filho no quintal, explica seu desatino à autoridade: “Eu pensei, sabia que não ia ter jeito.  Se conseguisse o registro [de nascimento] ia ter que arrumar o óbito.  O menino não foi no médico...   Se achasse os papel tinha que ver o caixão.  Não tenho nenhum tostão em casa, doutor, estamos passando falta...”. 

No romance “Pau Brasil”, o desespero materializa-se num fluxo de consciência. Diante do filho morto, um operário exalta-se em ira e autopunição: “Estou cansado de passar fome, de dever o aluguel, de fingir que comi, de calçar sapato furado.  E de não ter leite pro filho, nem caderno, nem roupa.  Malditos poderes, maldito mundo, malditas pessoas como eu que não fazem nada! Tenho sede de ter ordenado, de ser suficiente e pôr comida e teto, remédio e educação dentro de casa!  Eu matei meu filho!  Não roubei leite, não esfaqueei o dono da farmácia pra ele viver.  Maldito seja eu, pai desnaturado!”.

“Enigmalião” romanceia o dia-a-dia duma escola. Em dada passagem, o velho bedel tem um choque de estranhamento. Sutil, a narradora enfatiza as dificuldades dos discriminados: “Seu termostato controlador de mensagens acaba de detectar algo novo e a resposta é uma referência de sinais: a professora era preta”.

Confessional e íntima é  “Memórias da Menina do Povo”.  Lírica e comovente, são flashes das relações familiares, seus júbilos e sobressaltos. É a voz da escritora-menina, amante dos estudos: “No dia primeiro, o pai chegou cedo do serviço, chamou o Ramiro. Foram à cidade comprar o dicionário.  Era uma boa notícia, ficamos esperando o livro que tinha custado tantos dias sem pão”. Sublimando o saber como evento mágico, exclama: “chegou embrulhado em papel azul”.

A novela juvenil “Totó Piruleta”, avessa dos contos-de-fada, é uma cruel e inspirada evocação das tiranias.  Narrada na percepção dum garoto de subúrbio, mostra como a brutalidade de um amestrador de bichos se projeta na família: “D. Cecília também usava carrana!  Uma carrana invisível que seu Quinca empurrava pescoço abaixo. Rasteja! Fiquei assustado. Ela vivia sangrando, só que era sangue invisível”.

Minha amiga, professora no sempre, tinha o condão dos mágicos ensinadores: alumiava o escondido (Dinorath do Valle, 1926-2004).

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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