ROMILDO SANT'ANNA
Dalva & Herivelto
Começaram em dueto que é o início dos grandes amores. Ele, poeta boêmio; ela, a rainha da voz. E riam rindo da vida que é sonho, em palcos de cabarés. Formaram quarteto com os filhos, além de festivas cenas nas ondas do rádio e o rodopio de vitrolas.

Após anos, vieram as rusgas, cada qual segredando aos amigos por que já não se davam tão bem. Ele escreveu pra que ela cantasse, e Dalva gravou como se não fora pra si, mas replicando-lhe a mensagem: “ Teu mal é comentar o passado, ninguém precisa saber o que houve entre nós dois. O peixe é pro fundo das redes, segredo é pra quatro paredes! Não deixe que males pequeninos venham transformar os nossos destinos...”.

Separaram-se. Ele, amargurado, fez samba-canção à eterna interlocutora com resignada esperança: “ Não, eu não posso lembrar que te amei. Não, eu preciso esquecer que sofri. Faça de conta que o tempo passou, e que tudo entre nós terminou, e que a vida não continuou pra nós dois. Caminhemos, talvez nos vejamos depois”. Ela lhe devolveu o flerte mesclado de lembranças: “ Que será da minha vida sem o teu amor? Da minha boca sem os beijos teus? Da minha alma sem o teu calor? Que será, da luz difusa do abajur lilás? Se nunca mais vier iluminar, outras noites iguais? Meu amor, ninguém seria mais feliz que eu, se tu voltasses a gostar de mim, se teu carinho se juntasse ao meu! Eu errei, mas se me ouvires, me darás razão, foi o ciúme que se debruçou sobre o meu coração”.

Seguiram-se os recados. Ela, com terna melancolia: “ Tudo acabado entre nós, já não há mais nada. Tudo acabado entre nós, hoje de madrugada. Você chorou, eu chorei, você partiu, eu fiquei. Se você volta outra vez, eu não sei”. De madrugada... seria somente uma rima? – indagou pensativo. Com quem ela anda? Arvoraram-se opiniões. Herivelto suplicava: “ Não falem desta mulher perto de mim. Não falem pra não lembrar minha dor. Já fui moço, já gozei a mocidade, se me lembro dela sinto saudade. Por ela vivo aos trancos e barrancos. Respeitem ao menos meus cabelos brancos”. Sem resposta, tomou-a como rameira: “Transformava o lar na minha ausência, em qualquer coisa abaixo da decência!”.

Como é comum nesses casos, os amigos tomam partido, uns ficam de um lado, outros de outro. Ataulfo teatralizou-a em aflição: “Errei, sim, manchei o teu nome. Mas foste tu mesmo o culpado. Deixavas-me em casa me trocando pela orgia, faltando sempre com a tua companhia”. E acrescentou noutra letra: “ Não quero me fazer de inocente, porém não sou tão má como disseram por aí. Eu quero é meu sossego tão somente, cada um sabe de si”. Fora de cena e ante o silêncio, e imaginando que estivesse com outra, encomendou a um sambista o insulto enciumado: “Sei que é doloroso um palhaço se afastar do palco por alguém. Volta, que a platéia te reclama! Sei que choras, palhaço, por alguém que não te ama!”.

Embora sem os velhos duetos, jamais se desuniram em lindas canções. Antes de ir-se, ela rogou: “ Bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu peço paz”. E calaram-se. (Dalva de Oliveira, 1917-72 – Herivelto Martins, 1912-92).

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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