ROMILDO SANT'ANNA
Quem é o mais sanguinário?
Houve uma eleição em cujo resultado ebule o poder sobre o mundo. Venceu a falange democrata. Como? Democratas não são republicanos e, estes, não-democratas? Democracia norte-americana! Como palavras anuviam os pensamentos; como a virtude embaralha-se à indecência! Cai Donald Rumsfeld, o principal mentor de Bush no atentado ao Iraque (e ao Afeganistão). Atrás dele, visgos de sangue.

Que máscara é mais sanguinária, a de Saddam arrancada do buraco com feições de andarilho, ou a de Bush com o riso mirrado sob os olhinhos simiescos? Quem é o barqueiro do inferno, o satanizado Saddam, ex-amigo da Casa Branca e para o qual os estadunidenses mandaram estrategistas, soldados e mercenários, tanques e mísseis, componentes químicos e biológicos para fabricação de arsenal destrutivo, ou seus inimigos de agora, os EUA e lordes ingleses?

Quem vai ao pódio da abjeção? O execrável déspota dos incontáveis atos desumanos aos inimigos políticos e étnicos de seu país, ou Bush que invadiu o país a des peito de razões humanitárias e leis internacionais, transformando-o num inferno de ruínas, torturas, estupros e a imolação de milhares de inocentes? Quem é o mais sanguinário, Saddam ou George Jr.; o braço sinistro de Alá ou o psicopata ocidental que se faz soberano do mundo?

Saddam era apoiado pelos EUA (e ingleses) quando praticava as bestialidades que hoje o condenam à morte. Quem é o sanguissedento, o carrasco do genocídio ou o mandante das atrocidades? Quem tem compleição ética para encarnar o papel de anjo ou satã, juiz ou sentenciado?

Ao invés de um tribunal, Bush aplicou sua tábua de leis, compôs o júri e Saddam ouviu sentença odienta de seus compatriotas. Funcionários, oficiais de justiça e magistrados foram financiados pelos norte-americanos, que também treinaram os juízes do processo. Houve seqüestros e assassinatos de advogados defensores, outro teve que se evadir, uns abandonaram o julgamento por questionar a legitimidade postiça da corte. O juiz principal da trama foi substituído e testemunhas intimidadas. A população muçulmana pôde assistir pela TV a Saddam enjaulado durante os debates, mas as transmissões não eram feitas em tempo real para que se editassem as cenas inconvenientes ao veredicto almejado.

Pena de morte é a mais antiga e abominável forma de vingança. Reduz os tribunais e seus julgamentos à imagem torpe dos verdugos. É o olho por olho e dente por dente incivilizado e feroz das obscuras eras. É a lei de talião antiga e cruel, tão normal entre os estadunidenses. É expiar um crime pela força institucional de outra violação criminosa.

A tudo assistimos impassíveis, como às cenas dum filme de horror. Será um capítulo da história, abrandado pelo esquecimento e as infâmias de agora. Indiferentes ao suplício de um povo e às ignomínias contra ele praticadas, testemunhamos Bush afirmar, com a cara-dura dos canalhas, que o enforcamento de Saddam representa “uma grande conquista para a jovem democracia iraquiana, um marco no esforço para substituir o poder de um tirano pelo poder da lei”. Que lei, que tirano? Quem, entre os sanguinolentos, é o maior dos sanguinários?

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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