ROMILDO SANT'ANNA
Memória de minhas putas tristes
Um homem curvado em velhice vagueia dolorido no vazio da capa. Prenuncia-se mais uma obra-prima de Gabriel García Márquez. A novela “ Memória de Minhas Putas Tristes” retoma temas sensíveis ao escritor: a alegoria sociopolítica, isolamento e solidão, a recolha do passado, a espera silente, o fluxo de pensamentos sobre os percalços da vida. “O Outono do Patriarca” enfoca um ditador feudal e agropecuário parecido a tantos de nosso tempo. “ Cem Anos de Solidão”, concepção suprema do “ realismo mágico”, é o inventário de criaturas isoladas e quiméricas, num ermo chamado Macondo, povoação mítica – quiçá utopia ancestral e simbólica latino-americana – em que “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las havia que apontá-las com o dedo” . No conto “A Incrível e Triste História da Cândida Herêndira e sua Avó Desalmada”, uma velha decrépita, de família tradicional, carrega os ossos dos antepassados como se fossem sobrenomes, encenando um real-fantástico não tão distante do que vivemos. Em “ Ninguém Escreve ao Coronel”, um aposentado espera infinitamente por uma carta. Com a honra manchada em sofrimento, ele e a mulher dividem a miséria com um galo-de-briga, símbolo da resistência armada ante a primariedade do sistema sóciopolítico e seus dirigentes. Tudo em clima poético, a acuidade técnica, precisão léxica e nitidez das frases que fazem do artista colombiano um dos melhores ficcionistas contemporâneos em língua castelhana.

“ Memória de Minhas Putas Tristes” é um comovente relato sobre a solidão e sentimento do idoso. Inicia com estas palavras: “No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. O personagem central é um jornalista tímido e anacrônico, ex-professor de latim, que escreve para o “ Diário de la Paz” tediosas crônicas sobre música. Passou a vida dormindo na mesma cama em que nascera, numa sombria casa colonial cheia de livros, sem mulher nem fortuna, pensando na morte “ que desejo longínquo e sem dor”.

A epígrafe cita o japonês Yasuni Kawabata, também Prêmio Nobel da literatura, em “A Casa das Belas Adormecidas”. Nele, ricos anciães passam noites com adolescentes virgens, sem poder tocá-las, apenas contemplando seus corpos. Esta é a chave que abre ao esplêndido romance de García Márquez, com diferenças sutis e profundas. Enquanto em Kawabata a contemplação recorre à imagem da veneração budista, no novelista hispano-americano o personagem expõe-se ao desconforto de voltar aos prostíbulos para, magicamente, também encontrar uma “ Bela Adormecida”. No entanto, diferente da fábula original de Charles Perrault, ao invés de a moça acordar após cem anos de hibernação, é o jornalista nonagenário que renasce no desejo e sexualidade, reinventando o amor e projetando-se para a existência.

Chega bem tarde ao prostíbulo e sai de madrugada com pudor de não ser visto. A adolescente à sua espera, sempre dormindo, contenta-se em admirá-la. Examina-lhe o corpo em transformação, as roupas puídas, deixa-lhe presentes, compra-lhe uma bicicleta que ele mesmo experimentou na loja, sussurra-lhe canções e lê baixinho trechos do “ Pequeno Príncipe”, admirando-lhe as mudanças de feições. De noite em noites, percebe-se enamorado e confessa: “uma corrente cálida subiu pelas minhas veias, e meu lento animal aposentado despertou de seu longo sono”. Em ausência, tem-lhe ciúme, recorda-se do sono angelical da menina, sublime, platonicamente.

 

Escrito entre a primeira pessoa memorialista e a terceira narradora, o romance expõe as passagens pelas décadas avançadas da vida. Conta que pensou na velhice ao acostumar-se a “ despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos”. Depois, notou os primeiros ocos de memória “buscando meus óculos até descobrir que já os estava usando, ou entrava com eles no chuveiro, ou punha os de leitura sem tirar os de ver de longe”. Após, “ tinha na memória uma lista de rostos conhecidos e outra com os nomes de cada um, mas no momento de cumprimentar não conseguia que as caras coincidissem com os nomes”. Quanto à idade sexual, confessa: “dou risada dos rapazes de oitenta que consultam o médico assustados por causa desses sobressaltos, sem saber que nos noventa são piores, mas já não importam”. E suspira melancólico: “ são os riscos de estar vivo”.

Nestas “ Memórias”, em que criador e criatura em alguns pontos se mesclam (García Márquez, 78 anos, é jornalista), é o idoso que se descobre vivo, numa confirmação de que a longevidade é a forma superior dos sentimentos. Seus obsoletos artigos sobre música são agora cartas à amada “Delgadina” (“ magricela”) as quais, logo, são lidas por locutores de rádio e tornam-se prediletas dos ouvintes. Apesar de idoso, converte-se em “ príncipe encantado”e na consciência do ser imperfeito ante a eternidade. O romance se despede quando o lento ancião se apercebe de que alcançara enfim a vida real, com seu coração a salvo e uma paixão florida por dentro. Entende que morrer de amor não é licença poética, mas essência da vida. E o ocaso não chega enquanto há esperanças.

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 

 




 



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