ROMILDO SANT'ANNA
Os bilionários e suas culpas

No início de julho a “ Folha de S. Paulo” realizou interessante entrevista com Matthew Bishop, editor de economia da revista “The Economist” em Nova Iorque e ex-conselheiro da ONU em economia. Seu estudo favorito é o binômio riqueza e filantropia, e a sutil diferença entre riqueza e caridade. Traça um panorama contundente do capitalismo atual. Vivíamos momentos fervorosos da Copa do Mundo e o assunto passou quase despercebido. Embora me veja, cada vez mais nitidamente, como o menor dos entendedores das coisas, ouso tocar no assunto.

Situemo-nos. Desde o início do “kapitalism” em confins da Renascença, e tal como fora estudado no século 19 por Karl Marx, nunca houve tanta concentração de riqueza em poder de tão poucos. Essa discrepância vem crescendo. Em 1996, de acordo com o Economist Intelligence Unit, e segundo Bishop, havia no mundo 423 bilionários; hoje são 691, com o acréscimo de 268 outros bilionários em apenas dez anos. Estudante de contabilidade nos idos de 1960, aprendi que a lógica da ciência econômica consiste em que, se há um montante de 10 valores entre duas pessoas, é impossível que uma tenha 8 e a outra 5. Para que o mais abastado mantenha seus 8, o infeliz a seu lado só poderá ter 2. Ou, quanto mais rico é um, logicamente mais pobre será o outro; se aumenta a fortuna em mãos de alguns, na mesma proporção intensifica o infortúnio de muitos.

Durante a Guerra Fria e no capitalismo atual montaram-se cercas elétricas, construíram-se arsenais químicos e nucleares, fizeram-se guerras e massacres. Os governos do capitalismo protegeram tanto o sistema que o próprio, agora, pouco tem a conseguir e devora a própria cauda. Instado a falar sobre nosso país, diz Bishop que há indivíduos “ que se deram muito bem nos últimos anos na esteira do crescimento econômico. Tais pessoas não vão conseguir desviar os olhos dos problemas ao redor delas. Os ricos do Brasil estão mais assustados com a situação da desigualdade que seus pares nos outros países. Não é por acaso que cresce tanto o número de carros blindados e de helicópteros para escapar da violência. É muito difícil para os milionários brasileiros morar tão perto da pobreza”.

De acordo com o editor do “The Economist”, há nos EUA uma idéia do capitalismo como um jogo em que “o vencedor leva tudo”. Mas há também a compreensão de que “os vencedores da sociedade têm que ajudar os perdedores”. O mesmo acontece em nosso país? Não. Ao contrário, aumentam a espessura dos blindados, a voltagem das cercas em presídios de segurança máxima. No atual governo e no anterior, que se diziam “de esquerda”, a injustiça social é um acinte. Nunca especuladores financeiros acumularam tanto; nunca o capitalismo foi tão resguardado como meta institucional. Instaurou-se um dínamo em que o Estado ampara política e judicialmente o capital que, politicamente, ampara o Estado. Sairemos desse ciclo? Ou, insisto, há democracia, vale dizer, sistema político em que o poder é exercido em nome da maioria? Não.

Hoje , segundo Bishop, mais e mais bilionários norte-americanos advogam a distribuição de suas riquezas em formas de filantropia. Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, declarou que pretende doar 85% de seu patrimônio, estimado em US$ 40 bilhões, para a fundação comandada por Bill Gates, senhor da maior fortuna do universo. Decerto sentem a consciência pesada, complexo de culpa e sensação de desconforto diante da pobreza. Mas, nessa lógica, riqueza e poder mudam de dono? Bill Gates e sua Microsoft diminuem o preço exorbitante de seus softwares que fazem funcionar computadores de todo o planeta? Isto não seria uma contribuição honesta à humanidade? Mas preferem dinheiro na mão e, magnânimos, a conversão de parte dele na filantropia que lhes amplia o poder. Por aqui, o governo e seu antecessor instauram fórmulas distributivas de renda como bolsas e adjutórios mensais que aumentam a dependência viciosa e sedimentam o voto de cabresto. É possível visualizar em tais atitudes alguma consciência civilizatória? Não.

O capitalismo incipiente teve como pressuposto o amparo aos meios privados de produção: terra e capital. Entende-se como posse da terra não só seu valor de mercado e o futuro dos herdeiros, mas a apropriação e intimidação político-eleitoral dos que vivem sobre ela. Assim é que se mantém o sistema de mando dos antigos e escravistas coronéis. Alguma ação substancial tem sido feita para alterar a situação? Não. Ao contrário, aqui como em outras partes toscas do mundo, frutificam mais e mais os poderosos e fanáticos pelo poder em espécie: o capital.

Pessoas com muito poder não precisam de muita força para serem heróicas. Basta que abdiquem um pouco do poder, traduzido em riqueza, e farão os outros mais felizes. O problema é que, num Brasil tão arcaico, num terceiro mundo tão primitivista, o poder é um mal cumulativo e o poderoso sente-se pobre e entra em pânico quando se compara ao estágio anterior de sua própria riqueza. Nessa roda-viva, quer mais e mais poder. Filantropia e caridade, tal como praticam os norte-americanos, são disfarce e hipocrisia de um cruel capitalismo. Como ele é hegemônico e seus protagonistas vislumbram saídas que só os fortalecem, onde o mundo vai parar?

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 

 




 



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