ROMILDO SANT'ANNA
Superman, aventuras, venturas e desventuras

Fui assistir a “Superman, o Retorno” e fiquei frustrado. Estética e sentimentalmente frustrado. A fábula de Kar-El em novas aventuras é tosca e narcisista, abusa de um foguetório que enche os olhos, entope os ouvidos e, na mesma medida, trai a emotividade de suas aventuras. Nem parece cinema mas, violentamente, jogo de computador, uma exorbitância infernal de efeitos que tornam a natureza mítica e singela do herói um objeto de matéria-plástica. De plástico é a fisionomia do ator que almeja substituir Christopher Reeve; de plástico a música épico-sentimental de John Williams agora com insensível roupagem; de plástico o roteiro que se sobrepõe à engenhosidade de Mario Puzo em “Superman, o Filme” e “Superman, a Aventura Continua”.

Fascina-me Superman nos gibis, livros e cinemas. Tenho-lhe uma rica edição, extraordinária e bem feita, com roteiro e grafismo de Alex Ross e Paul Dini: “ Paz na Terra”. Kar-El deixa Metrópolis e percorre várias partes do planeta. Avista do alto o Rio de Janeiro e sussurra em monólogo: “ Vôo para o Sul, para países onde quase não existe meio-termo entre a riqueza e a pobreza. A grande cidade abaixo é um doloroso exemplo desse abismo.”. Os brasileiros se alegram e ele pensa: “ pelo menos hoje vão ver que alguém está olhando por eles”. O verdadeiro em Superman localiza-se no limite entre o real e o sonho; há um élan humanitário que transcende a fome, o sofrimento e as injustiças. Atinge zonas ancestrais e simbólicas do pensar e sentir, aquilo que em psicanálise e antropologia denominam o inconsciente coletivo.

Convivemos com esse personagem como um menino que não distingue diferença entre a magia do brinquedo e a aspereza da vida real. Não me custa confessar: em criança, viajava pelos ares ao lado de Peter Pan, deslizava em teco-tecos de papel. Você pode pensar que, na minha idade, cultuar esse amigo é fantasia adolescente. Talvez. Mas quem, em qualquer estágio da vida, não voa em imaginação? Quem não flutua em devaneios? Por isto, sou fã ardoroso de Kar-El, filho-herdeiro do filósofo Jor-El, o Clark Kent de óculos e estabanado jornalista como eu. Rimamos. Mas só ele existe como o salvador do mundo, suprema bendição do céu.

Tenho-lhe inveja. Enquanto esvai o que resta de meu passado, ele voa esplendoroso, desdenhando o furioso tempo que, com obstinação, me desvanece. Mas, progressivamente, nos compensamos: eu, na certeza de morrer; ele, no tédio de ser só, jovem e infinito. O que se instala entre nós, e idealizadamente, é a união no amor, o afã de justiça e a tragédia de existirmos e estarmos aqui.

Transpassou o desconhecido das galáxias e chegou à Terra. Deve ter algum motivo escrito em evangelho. Não vejo aberração em emocionar-me consigo, repito. Enquanto na dimensão física é considerado mais heróico o menos super, nas veredas dos sonhos é mais super o mais heróico e fabuloso. Daí porque os super-heróis são criaturas fictícias, porém reais, dotadas de poderes sobre-humanos. Personificam o bem. Seriam imagens de Deus – o misterioso intercessor – ou de seu filho? Nós buscamos a virtude e suas variantes; Superman é encarnação da virtude. Na imaginação ou num tempo plausível simultâneo ao nosso, ele habita um ermo indefinido, o tempo-lugar das criaturas mitológicas e eternas. E, acompanhando-nos como sombra, nos redime.

O mundo dos super-heróis, tal como concebe a fantasia, nada mais significa que um sonho remoçado das epopéias antigas. Gregos e macedônios, romanos, chineses e habitantes à margem do Eufrates se entretiveram com eles, buscaram neles inspiração para o enfrentamento dos terrores e explicações dos mistérios. Na saga de Kar-El revive o virtuoso guerreiro, o audaz navegador de Argos, o onisciente fazedor do bem. Ele é um pouco a voz de Maomé cantarolando às areias, o intrépido Enéias, Hércules e suas façanhas e, inda que pareça indestrutível, tem um calcanhar de Aquiles, a kryptonita.

Os heróis antigos – gregos pelo menos –, com a aura dos semideuses, vinculam-se a um sideral Olimpo; Superman é o último descendente de uma estirpe que habitou um elísio distante: Krypton. Sua força acrescenta às sagas homéricas uma odisséia que é nossa, nos dias de hoje. Como em proeza, salta da história em quadrinhos ao vidro de nosso espelho. Contemplo-o, comprazo com ele e me redimo. É infundada adolescência, diriam os carrancudos! Mas estudos genéticos, ciências e tecnologias atuais, às vezes confrontando a natureza, nada mais fazem que acrescentar superpoderes à maravilha corpórea e existencial dos humanos. Põem-nos molas no coração, pinos e grampos nos ossos, chips e extensores no cérebro, baterias eletroquímicas e marca-passos. Instruem-nos a desafiar o mais cruel dos arquiinimigos: Saturno com seu cronômetro, e a mais terrível das medusas, a morte.

Superman, cristão entre os super-heróis, instaura a fundamental ironia: cópulas de amor, perdemo-nos em ambições que deságuam em maldades. E às vezes nos confinamos sob o olhar austero do destino. Christopher Reeve – o Clark Kent em carne e osso –, sobrevive tetraplégico. E sorri.

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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