ROMILDO SANT'ANNA

De Santiago do Chile
Escrevo dum hotel em Santiago, lado de lá do Brasil, no Pacífico. Os chilenos têm um calor mesclado de elegância índia, crença no emotivo e afã incondicional de confraternidade. A virtude de irmanar está na seiva hispano-americana. Nessa raiz, o sedimento de velhos mundos e novas quimeras. Por aqui, mais do que se leria em Shakespeare, somos do material de que os sonhos foram feitos. Tive semelhante sensação há alguns meses em Montevidéu. E me perguntava: em que ermo da alma de um país tão lindo e generoso se amontoam as imagens de tantas intimidações pela tortura, desaparecimentos e mortes sob o jugo de assassinos?

Estou a lembrar-me da confissão em lirismo de Pablo Neruda no “ Canto Geral”. Resume o temperamento evangélico de uma nação na interminável noite da vergonha: “ Nada mais sou que um poeta. Amo todos vocês. Ando errante pelo mundo que amo. Na minha pátria encarceram os mineiros e os soldados mandam nos juízes. Mas amo até as raízes do meu pequeno país frio.... Eu não quero que volte o sangue a encharcar o lírio, o trigo, a música... Quero que venham comigo a criança, o advogado, o marinheiro, o fabricante de bonecas... Que entremos no cinema e saiamos a comer nosso pão, a beber nosso vinho... Não quero modificar nada. Vim aqui para cantar e pra que cantes comigo...”.

Ali , no Estádio Nacional, frente a uma platéia de agonia, jovens foram covardemente imolados. Alguns, a despeito de lhes arrancarem os braços e lhes queimarem os rostos, continuaram cantando. Foi assim com Victor Jara, poeta do povo, no funesto picadeiro. Por conta da brutalidade, milhares de corpos em sonhos nunca foram entregues às famílias. Fizeram-lhes os sádicos “vuelos de la muerte” e dormem no escuro do mar ou em soturnas valas clandestinas.

Sob o disfarce populista de dar migalhas aos famintos, ditadores amealharam fortunas particulares. Com o fuzil da desrazão, dilapidaram seus povos. Em sofrimento, não foi em vão outro grito de Neruda: “ Por esses mortos, nossos mortos, peço castigo. Para os que de sangue salpicaram a pátria, peço castigo. Para o verdugo que mandou esta morte, peço castigo. Para o que deu a ordem de agonia, peço castigo. Para os que defendem esse crime, peço castigo...”.

Nos confins ibéricos do continente vagou a impunibilidade ( privilégio vitalício dos impunes). Tudo abrandado pelo esquecimento. Foi assim com sanguinário Stroessner, um dos genitores da Operação Condor (o Mercosul da vileza), que acoitou no Paraguai carniceiros do nazismo. Definhou este ano em Brasília. Era assim com o sinistro Somoza que, sob os olhos em chamas dos EUA, ordenou a morte de 50 mil nicaragüenses. Foi assim na Colômbia, Venezuela, Cuba, Panamá, República Dominicana, Haiti...

Era assim com Fujimori no Peru, outro indecente tirano da América Latina. Assim foi com Banzer na Bolívia, e os carrascos argentinos que mancharam de sangue as águas do La Plata. Pinochet extenuou atado à tarja dos horrores. Para além deles, o sol parece maior nesta cidade ao pé dos Andes. Adentra pelas janelas e alumia rostos de fraternidade. Por esta luz de um povo em cordilheira vim aqui. Salud!

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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