ROMILDO SANT'ANNA
O Companheiro

Conheço o Baiano, esteve em minha casa. E continua, na sala, num retrato pintado em tinta óleo, de 1981. Olhando fotos de diversas datas, éramos mal de roupas: camisetas de mangas compridas, casacos de flanela... E aquela pose com o braço no ombro do outro, sorrindo para o fotógrafo: “Diga... conhaque!”. Fui um entre milhares, e é normal que não se lembre de mim. Ainda bem. Sinto uma coisa por dentro, um desconforto toda a vez que o critico. Os sentimentos passados, tão vivos, se sobrepõem às diferenças do presente. Acho que ficamos piores, cada um a seu jeito.

A mais bela crônica do antigo Lula – o Baiano – foi feita por Ricardo Kotscho, repórter do “ Jornal do Brasil” e ex-assessor de imprensa da campanha à presidência de 1989. Está numa edição da “ Revista Goodyear” e a guardo com carinho.

Escreveu que Lula, gentil e brincalhão, era o nordestino emotivo capaz de chorar por qualquer agrado ou desgosto. Diante das multidões que o seguiam pelo Brasil, alternava lágrimas de rir com a emoção de ver uma mulher sem arredar o pé diante do palanque, carregando o filho pequeno no colo, horas debaixo da chuva forte no comício numa cidade do Norte. Sorte dele as pessoas não saberem se as gotas que escorriam do rosto eram frutos da chuva, do suor ou da emoção. Eleitor brasileiro – dizem – não vota em homem que chora; gosta de machão que soca o ar.

Conta Kotscho que, no rebuliço de assédio da imprensa, arrastou o Baiano e família pra dois dias numa praia. Ao chegarem, Lula fixou um cartaz na cozinha com os “ direitos das pessoas que moram nesta casa: 1. comer tudo o que têm direito; 2. beber tudo o que têm direito; 3. passear à vontade. Deveres: 1. lavar a louça que sujar; 2. limpar a casa todo dia; 3. tomar banho no chuveiro lá fora, depois da praia”. Ao final, o adendo que tornava nítido o caráter do autor: “ Todos são iguais nos direitos e deveres. Este é um princípio do socialismo!”.

Era o Sapo Barbudo, como o apelidou acidamente Leonel Brizola. Estava em franca ascensão eleitoral e certamente seria o Operário-presidente. Até que Collor lhe desferiu a mais sórdida cafajestice que se possa fazer a um homem. Com um maço de dinheiro, pagou uma ex-namorada pra contar na televisão, entre soluços e lamúrias, que o companheiro renegara a própria filha. Narra Kotscho que seu irmão mais velho, apelidado Frei Chico e também metalúrgico, lhe deu a explicação: “ Quando você ofende a família de um sertanejo, ele só tem dois tipos de reação: ou mata o desafeto ou fica magoado”. Morrido por dentro, foi ao debate final da Rede Globo. Recusou-se a usar semelhantes, mas reais acusações contra o adversário. E, já perdido, perdeu.

Lula, o lutador heróico que não desistiu e é história; o que sonhou com que todos passeassem à vontade. Antes de tudo, o forte que escreveu com vida o que se lê em Euclides da Cunha no retrato dos sertões. No itinerário dos tempos e enigmas dos destinos, renegou que alguma vez fora um socialista, reinventou-se; conciliou com inimigos inchados de ambição e ódios de classe. Foi trucidado pela moenda do poder. Talvez seja outro. Outro, contraditório, demasiado humano, impossível de esquecer.

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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