ROMILDO SANT'ANNA
Você viu Koyaanisqatsi?

É impossível saber se estás na minha faixa de idade: cinqüenta e lá vão porradas. Ai, quantas e tantas pedradas, quantos acordes em dó menor, quanto vinho de safra duvidosa despejada goela abaixo! Fumando algumas coisas, tocávamo-nos, como se fôssemos partes do outro, bebendo goles de Billie Holiday misturados com Bob Dylan e The Mammas & the Papas. Tampouco posso adivinhar, leitor, em que ocasiões te vem a sensação de tempo perdido. No entanto, se jamais a tens, não te felicito. Se nos pesam mais de meio século nos costados, haverá entre nós um liame irreversível, o de estarmos postos em extremos da mesma ponte: a doce loucura dos anos que passaram.

Apresento-me. Venho de uma geração que assistia a todos os filmes de Godard. E os víamos sem renitência, pois não era de bom augúrio, e tampouco queríamos, sair na metade da sessão. Nem namorávamos como devia, pondo atenção nos movimentos de câmera, nas demoradas seqüências, a montagem descontínua, gestos de improviso, falas ambíguas e tentativas de dar a cada imagem sentidos relutantes, decerto metaforizando as agruras do planeta. O desconcertante era o inescapável encontro com amigos, cinéfilos de sempre, freqüentadores da Casa de Chás Luar de Agosto. Saíamos do cinema imbuídos de uma gravidade taciturna e interrogativa do que acabávamos de ver. “E aí, gostaste?” E éramos moralmente intimados a responder, lacônicos, e tão hesitantemente afirmativos: “ Genial! Jean-Luc é incrível!”.

Convivi com essa perturbação desconfortante de acostumar-me a sair da conversa à surdina. Só muitíssimos anos após alguém opinou que os franceses costumavam fazer filmes baratos, chatos e difíceis de entender, ou seja, “de arte”. E era isto que desejávamos. Fincava-se nossa divergência com o imperialismo norte-americano. Eles lançavam fitas caras, fáceis e digestivas, ao gosto do povaréu. Alienadas, despolitizadas! – decretávamos até com náusea. É que sorvíamos a estética de “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”. Sublimávamos o experimental, o aleatório, o teatro do absurdo, com o beneplácito da nouvelle vague, da psicanálise, o estruturalismo e os Cahiers du Cinéma. Nem incomodava que tais fazedores realizavam filmes pra si; contentava a sensação de que tragávamos do mesmo e narcotizante fumo.

Ai, quanto tempo deixei escorrer neste mundo de meu Deus! Por quantas jornadas esfarelei a mente em páginas de livros, ciclos de palestras e seminários sobre semiologia da arte, a matemática dos sentimentos e maquinações mentais que pareciam reduzir a zero os enigmas do mundo! Tive uma professora de literatura que gastou um ano inteiro lucubrando sobre “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Melo Neto. Explicava, com tino de samurai: lembrem-se, um canto sozinho de galo não tece uma manhã; ele precisará sempre de outros galos, de um que apanhe esse grito e o lance a outro... E nos deixava com a sensação de que muito mais teria a nos instruir, não fosse o adiantado da hora e a precariedade do ensino universitário contra o qual deveríamo-nos rebelar!

Não me recordo (e nem vou forçar a lembrança, pois, esqueci de dizer, encontro-me numa praia) se foi Fellini que escarneceu dizendo que, para se obter uma cena “de arte” bastava filmar alguns minutos com a câmera fora de foco. Resultavam mechas de intenções, brumas de significado existencial que instauravam uma aura vanguardista, intensamente questionadora dos valores, enfim, obra aberta a vagas e freudianas interpretações.

Vistes Koyaanisqatsi? Há semelhança com as peças de Bob Wilson sobre as quais um amigo tornou-se PhD em Nova Iorque. Falou-me enquanto fumávamos. As personagens se moviam como se estivessem no fundo do oceano. Eram tão lentas e longas que o espectador saía para as necessidades, passava no cinema e, ao voltar, tinha impressão de que nada se modificara no palco, como a mesmice cotidiana. Minimalistas, queriam exprimir simplicidade frente ao mundo revolto, a brutalidade das máquinas, o desastre e outras perplexidades do século XX. Koyaanisqatsi foi mais ou menos assim, estilizado, feito para gente como nós, de “ mente aberta”. Invertia o papel da música no cinema. Algo como fizera, açucaradamente, um Disney psicodélico em “ Fantasia”, ilustrando sinfonias clássicas. Em Koyaanisqatsi, sorvíamos sensações emanadas do talento musical de Phillip Glass. Fiquei deslumbrado ao descobrir que ele era motorista de táxi na ilha de Manhattan. Como assim, num frenesi friorento, captar inspirações de toques e instintos indianos, orientais?

Em Koyaaniskatsi, de Godfrey Reggio (que, após, nos brindou com “Powaqqatsi” e “Naqoyqatsi”), nuvens se movimentam em turbilhões desenhando formas apocalípticas, flores se abrem instantaneamente, alheias à ordem do universo, a multidão agonizante vai e vem pelas bocas de metrôs, como formigas atormentadas pela chegada do inverno. Tudo na contramão intelectual das coisas planejadas, no ritmo ignorado e movente do tempo que passa, e me vai pondo rugas e vincos no pescoço... E eis-me finalmente aqui, fazendo contrapeso a mim mesmo, de madrugada, na praia, depoente duma história universal das façanhas inúteis, neste escandaloso encontro contigo.

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 

 




 



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