ROMILDO SANT'ANNA
Judas em nós

Que ironia dos mistérios, que arapuca traiçoeira do destino! Significa na língua dos hebreus “o que seria louvado”. Contudo, fazemos-lhe a louvação às avessas, com ascos e imprecações. Aludimos-lhe com os signos de maldito. Ele nos aparece como quem surgiu dum confim sombrio, povoado de ruins espectros, saído duma greta – quem sabe? – onde Judas perdeu as botas, não fora ele o próprio Judas. Chutado pela consciência como cão sem dono, descende desse traste, dessa incúria desgarrada das catervas, a locução desprezível: “O beijo de Judas”.

O nome do tal, em vez de referir à pessoa, tornou-se substantivo comum, o farrapão, a besta humana, o que vaga como um Judas no desprezo dos caminhos e horror dos pensamentos. Vemo-lo como arauto dos ímpios e blasfemos, o que ofende a confiança, o infiel e traidor, não fosse ele próprio encarnação do Iscariotes. A prece de S. Judas, santo das causas impossíveis, esclarece que Tadeu não é aquele tal, o endemoninhado que se encorajou de vender um amigo à malvadeza, sabendo que o empurraria ao martírio. Embolsou trinta dracmas de prata, moeda insuficiente para arrematar na feira o mais infeliz dos escravos, ou com que se adquirisse um frasco de alabastro com perfume de nardo, o mesmo com que Madalena banhou os cabelos de Jesus, que Judas atraiçoou. Ele é o ser vulnerável, o possuído de Satã, símbolo esconjurado, talvez, da abominável tragédia humana, da realidade intragável e assustadora nos pesadelos os quais, para nossa paz interior, os enxergamos como que alheios à natureza humana. Ele, Judas, seria o desumano travestido em gente.

Alusões à existência dum “ Evangelho de Judas” não são de agora. Há décadas, foi aventado em “A Última Tentação de Cristo” de Martin Scorsese, baseado no livro de Nikos Kazantzakis. Mesmo que rechaçado por igrejas, coloca o Salvador na dualidade da carne e espírito, a encarnação humana do divino. A massificação dessas fábulas ou inventos deu-se com o “ Código Da Vinci”, de Dan Brown. No romance, Madalena foi criatura reinventada como prostituta para apagar indícios de que era a mulher de Jesus. Dessa união nascera a nova linhagem, descendente de Salomão e da Casa de Davi: o Nosso Senhor. O segredo do Santo Graal, seria então, e escondido a sete chaves, o sang-real de Jesus de Nazaré. Pergunta-se: mesmo que fossem verdadeiros – e talvez o sejam! –, em que sentido os supostos evangelhos apócrifos interferem na magnitude de uma doutrina incondicional do amor, no martírio da paixão e santificação do filho de Deus?

O “ Evangelho de Judas”, um códice em papiro de poucas páginas agora traduzido e revelado, teria sido escrito por um grupo de gnósticos por volta do ano 180. Nele, o apóstolo maldito seria em verdade o melhor amigo de Cristo. E o delatou a seu pedido, como sagrada missão. As 30 moedas de prata não foram salário da imundície, nem serviram para a compra de um cemitério de sangue, mas representam um ato supremo de coragem e santa obediência. Indaga-se, repetidamente, em que sentido a traição encenada interfere nos ensinamentos que nos predispõe a desejar o bem do próximo, a tolerância irrestrita e sublimação do Messias?

O que nos aterroriza, o traidor ou a traição? Em que acreditamos, no “ Evangelho de Judas”, que nosso medo da verdade talvez o tenha escondido por quase 2 mil anos, ou no testamento da cristandade, a nova aliança Deus-e-humanidade, vinda ao mundo para redimir os pecados, ensinar a partilha, a igualdade e atos de fé até hoje colocados à prova da falibilidade humana? Quem faltou à verdade, o apóstolo Judas ou os evangelistas canônicos? Se o Iscariotes, nada mais que outro artifício do execrado cronista do mal; se a santa escritura, uma injúria contra o mais fiel amigo de Jesus, sendo ambos, e nós mesmos, os traídos. Indaga-se reiterativamente: em que medida tais dúvidas interferem nas lições duma catequese de fraternidade, misericórdia e bem-aventurança?

Judas , o não-louvado que traiu o inocente, talvez fora o isento de malícia, sem zelos de seus atos. Quiçá, o lutador simplório em defesa de seu povo. Acaso, o mito da infâmia e covardia. Essas dúvidas são espadas e varapaus apontados contra nosso peito. Sua queda na corda da agonia encerra uma grave advertência acesa dentro de nós. Traição é nosso lado escuso, sombrio. Esse símbolo da maldade, esse espantalho traidor pulsante em nossas veias dependuramos em árvores e postes de esquinas, colocamos-lhe bombas no abdômen de trapo, fazemos-lhe a troça e vingança, conflagramos seus atos imaginários ou reais com gritos punitivos, e o satirizamos e o queimamos, como que recriminando na alma o ato candente da traição viva na consciência do traidor. Essa liturgia de purificação, esses ritos em que nos livramos da inconfessável treva em nós, punindo-a dentro e fora de nosso corpo, coincidem em calendário com o fim da quaresma, a aleluia e suas promessas, no sábado da ressurreição. Isto é sinal de que nem tudo se perdeu, e divinamente renasce. E que a escuridão do martírio em cadafalso do Rabi teima em anunciar uma luz, para que a enxerguemos e, assim, ela e também ela nos ilumine.

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 

 




 



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