ROMILDO SANT'ANNA

A Descoberta do Silva

1946, há 60 anos, tão por acaso como fabuloso, José Antônio da Silva era descoberto em Rio Preto. Revelava-se o maior divulgador da arte primitivista brasileira e que tem quadros em museus e salões de renome, verbetes em enciclopédias, estudos e compêndios iconográficos no Brasil e exterior.  Relembrar as circunstâncias de aparecimento do artista é pôr lado a lado o passado, o presente e seus contrastes.

Naquela época, poetas e intelectuais da hoje União Brasileira de Escritores, entre eles Oswald de Andrade, Sérgio Milliet e José Geraldo Vieira, empenhavam-se na formação de núcleos culturais pelo interior paulista. Nessa efervescência, ainda ecoando vozes modernistas de 1922, criou-se a Casa de Cultura de Rio Preto, cidadezinha com cerca de 45 mil habitantes. Funcionou por dois anos; o diretor era o entusiasta Basileu Toledo França. Na inauguração, uma mostra de pinturas com prêmios em dinheiro aos melhores da cidade.

Citado em meu livro “Silva, Quadros e Livros – Um Artista Caipira”, o historiador e crítico Paulo Mendes de Almeida, integrante da comissão julgadora, relembra: “Em geral eram telas de um rançoso academismo, cópias de cromos e gravuras de flores, retratos de mulheres, tachos de cobre... paisagens simplórias. Num canto, meio escondidos, três quadros chamavam atenção: num deles, umas vacas; noutro, Dom Pedro I e José Bonifácio.  No último, uma moça de maiô passeava de barco, num córrego. Ao perceber nossa intenção de premiar aquelas obras, houve hostilidade, ressentimentos e frustrações. Basileu interveio dizendo que entendia nossa atitude. Mas a sociedade local ia interpretá-la como pilhéria, acinte e deboche. Explicou que o autor era um guarda-noturno de hotel; não o consideravam minimamente artista, mas um tipo amalucado e primário a que ninguém dava bola”.

Silva, que morava de favor num quarto de fundos de um Centro Espírita, relembra aquela noite: “Vesti um terninho e fui. No pior cantinho da Casa de Curtura é que tava os meus quadrinho, rústico, tudo torto e tudo rupiado, tudo feio!  Então pensei: bem que aquele pintor falô que eles ia rir da minha cara! O que é que eu fui fazê, meu Deus! Ô, mardita hora que peguei os pincéis e pintei com aquelas tinta rústica, tinta de porta, naqueles pano ferpudo de flanela que me deu tanto trabaio!  Agora eles vão me prendê ou me matá!”. Ingênuo, sofria com o desprezo a si e a seus quadros. Em meio à celeuma, foi destituída a comissão julgadora (também composta por Lourival Gomes Machado, primeiro curador da Bienal de S. Paulo, e o filósofo João Cruz Costa). E, conciliatoriamente, repartiram os principais prêmios a professores de pintura e eminências locais.

Em 1948, Gomes Machado organizou exposição de Silva na Galeria Domus, o melhor espaço comercial de arte moderna da capital. Os quadros foram vendidos; sucesso de crítica.  Com a “Colheita de Algodão”, a arte naïf adentrou os salões do MASP. No ano seguinte, o Museu de Arte Moderna editou seu “Romance de Minha Vida”. E tudo seguiu em romanesca história, longe e perto, muito longe de Rio Preto. Morreu há 10 anos  (1909-1996).

Foto: José Antônio da Silva/1946
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 
 

 




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