ROMILDO SANT'ANNA
Adoniran e uma aflição resignada

Ouvíamos pela Record o “ Balança mas não Cai” – esquetes num edifício de residentes hilários, remediados. E também as “ Histórias das Malocas”, escritas por Osvaldo Moles, com episódios tragicômicos num fabuloso Morro do Piolho. Desenhavam duas faces dum Brasil que se urbanizava. Comovia-nos a voz áspera do ator Adoniran Barbosa. A força insinuante do rádio nos remetia a ermos sombrios, povoados de seres carimbados de infortúnio. A dureza da vida confluía num resignado personagem: Charutinho. Era o reverso do malandro, a suspirar bordões com que arrematava suas desventuras: “É, como diz o ‘ deitado’, pobre pra comer de graça, tá sempre com dor de dente!”. Anti-herói ítalo-caipira despejado na metrópole, inventando jocoso linguajar, encarnava a aceitação da vida em cortiços e favelas. Tal criatura, transferida à canção, é a voz em sonhos na singular poesia do artista.

O samba de Adoniran, alegre e brejeiro, alimenta-se dum tom melancólico, dramático, a espelhar o povo submisso, paciente aos humores do destino. Em notas de dissabores, enfoca o esquecido, o híbrido e transcultural, em sua dicção plebéia, com alegrias mescladas de infelicidades. Saído do interior – nasceu em Valinhos –, foi pessoa modesta, parecida com seus personagens. Tornou-se o cronista sentimental de uma São Paulo oculta e da qual não se escutam os lamentos. Viveu a metrópole com o estranhamento de quem se sente estrangeiro na cidade. Converteu-se em múltiplas criaturas de si. Em “ Torresmo à Milanesa”, é o operário em construção que conclama: “vamos almoçar, sentados na calçada, conversar sobre isso e aquilo, coisas que nós não entende nada”.

Tudo fazia adivinhando situações que consolidam emocionalmente o coração de seu povo. Rimando “automóver” com “revórver”, como que rindo das circunstâncias, via em cada parte um amargor, e o decalcava em canções. Era o que teve a casa inundada pelo temporal, a atropelada no trânsito, o que assina em cruz, o que adota a criança órfã do amigo, o despejado por ordem da justiça, o desvalido debaixo da ponte, o que vê aflito a demolição de seu barraco, tudo com o sentimento do anônimo na metrópole, governada por leis sociais que trituram, devoram e esquecem.

Essa resignação tão sensivelmente fruída por Adoniran propicia à sua obra uma aura mística, como se seus personagens revivessem a bíblica e bem-aventurada sina dos humildes. Engrenam-se na mesma sentença o riso e a aflição, a comédia e a tragédia. Em “Pafúncia”, é o amante conformado que exclama: “O teu coração sem amor se esfriou, se desligou. Até parece, Pafúncia, aqueles elevador que está escrito: não funúncia. E a gente sobe a pé”.

Um dos grandes sucessos do artista é “ Saudosa Maloca”. Fez-se marco da resignação, sorvida como ato de fé. Uma voz coletiva confessa: “Peguemos tudas nossas coisas e fumos pro meio da rua preciá a demolição. Que tristeza que nós sentia, cada tauba que caía, doía no coração. Matogrosso quis gritá, mas encima eu falei: ‘Os home tá co’a razão, nós arranja outro lugar’. Só se conformemo quando o Joca falô: ‘ Deus dá o frio conforme o cobertor’...”. Em “Agüenta a mão, João”, um padecente vê na infelicidade do outro o consolo da própria desgraça: “ Não reclama contra o temporal, que derrubou teu barracão. Não reclama, güenta a mão, João, com o Cibide aconteceu coisa pior. Não reclama, pois a chuva só levou a tua cama. Não reclama, güenta a mão, João, que amanhã tu levanta um barracão muito melhor”. Em “ Despejo na Favela”, a resignação justifica-se como aceitação à “ ordem superior”. Mas deixa uma interrogante súplica em relação aos demais infelizes: “ Pra mim não tem problema, em qualquer canto eu me arrumo, de qualquer jeito eu me ajeito. Depois, o que eu tenho é tão pouco, minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás. Mas essa gente aí, hein? Como é que faz?”. A desdita pode estar à espreita em toda esquina. “Iracema” é doloroso monólogo sussurrado à noiva que morreu. Faz-se o retrato sem retoques do imigrante paulistano ao qual é necessário advertir: “ cuidado ao atravessar essas ruas”. E o personagem recita, em clima de oração: “Iracema, faltava vinte dias pro nosso casamento... você travessô a S. João, vem um carro, te pega e te pincha no chão. Te levaram pra assistença, o chofer não teve curpa, Iracema, paciença”. O clímax desse drama é um detalhe que desenha magnífica imagem da pobreza em solidão: “De lembranças guardo somente suas meia em seu sapato. Iracema, eu perdi o seu retrato”. Em Adoniran e sua conformação com o infortúnio, parece que tudo se avaliza pela fé no sobrenatural. Realçam-se os efeitos da tragédia como se fossem um projeto escrito além da vida, numa tábua dos padecimentos a serem cumpridos. Suas criaturas religam-se, como que instintivamente buscando a forma de dizer “ religião”. E, assim, esquecidas na metrópole, reconfortam-se, fazem um pacto de união entre si e com Deus. Resignação. Talvez seja esta a chave que explique, no grande artista, essa convergência tão profunda e autenticamente brasileira do riso na dor (João Rubinato, o Adoniran Barbosa, 1910-1982).  
 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 

 




 



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