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José Roberto Baptista

Parapsicologia: entre a fé celestial e a razão infernal

A Parapsicologia tornou-se, para muitos, uma área de conhecimento de particular interesse.

Via de regra, tal interesse manifesta-se ao longo de diversas trajetórias de vida ligadas a atividades religiosas que acabam por se tornar insuficientes para responderem a determinadas, e particulares, perguntas. Isso, contudo, não significa necessariamente um afastamento da fé. Veremos logo adiante que há investigadores da fenomenologia parapsicológica que declaram e professam sua fé abertamente. Portanto, quando nos referimos a esse "particular interesse" significa apenas dizer que muitas questões que permaneciam sem respostas acabam, de certa maneira, respondidas ou, pelo menos, encaminhadas para uma resposta favorecida pela racionalidade.

O que traz certo desconforto para muitos é a aceitação da Parapsicologia enquanto uma área de investigação científica. Veem-na como "algo" misturado ao místico, ao oculto, ao mágico. Na verdade, isso se deve à sua própria origem, ligada que foi aos fenômenos espiríticos. Contudo, a Parapsicologia nada tem de místico ou oculto. Ao contrário, nada há em Parapsicologia que seja oculto, místico ou místico-religioso.

A grande questão, para traduzirmos em poucas palavras, é que fenômenos parapsicológicos, de fato, são em menor número que imaginamos. Muitas ocorrências atribuídas à paranormalidade nada têm de parapsicológico. Sempre me refiro a um exemplo. Vejamos.

Alguém afirma que viu, por diversas vezes, um fantasma em seu quarto. Muito bem. A pergunta que não quer calar é: o que tem a ver, pelo menos a princípio, a visão de um fantasma com a Parapsicologia? Nada. Essa visão pode estar associada a uma patologia. Se isso for constatado, deve, indiscutivelmente, ser tratada por um profissional da saúde. Não existe - e nunca existiu - tratamento parapsicológico ou qualquer forma terapêutica parapsicológica. Basta consultarmos a História da Parapsicologia para confirmarmos isso.

Alguns, entretanto, por desconhecimento com certeza, e talvez até má-fé, difundem e, o que é pior, praticam "terapias parapsicológicas". Nada há de mais insensato e inconveniente. Esse comportamento, injustificável, macula, ainda mais, a já tão desgastada imagem da Parapsicologia.

Mas, voltando ao ponto.  Para a Parapsicologia ninguém vê fantasmas a bel prazer, fora de um estado alterado de consciência. Em outras palavras, ninguém vê um fantasma em estado normal de consciência. Se isso estiver ocorrendo, como disse anteriormente, o melhor a fazer, e rapidamente, é procurar ajuda de um especialista para averiguar e diagnosticar o problema.

O fantasma, insisto, na concepção comum dada ao termo, não existe para a Parapsicologia.  Para a Parapsicologia existem as transfigurações, fantasmogênese etc., mas segundo a Parapsicologia, tais produções ectoplasmáticas ocorrem de dentro para fora. Em poucas palavras, é uma projeção inconsciente. Por isso dizemos que os fantasmas existem sim. Mas existem nas mentes de algumas pessoas que os projetam para o ambiente. Portanto, são projeções mentais e não seres desencarnados que se apresentam com o objetivo de comunicar-se com os vivos.

Essa relação da Parapsicologia com entidades desencarnadas surge em virtude de contextos religiosos nunca constatados experimentalmente pelos estudos parapsicológicos. Utilizar a Parapsicologia como escudo e confirmação para tais afirmações é usá-la em defesa da fé. Injustificavelmente.

O problema, muitas vezes, apresenta-se com dimensões dilatadas, em virtude de muitos verem os estudos parapsicológicos como esteiras para atingir objetivos pouco claros.

Isso se liga, também, ao início das investigações, tratadas à época como pesquisas psíquicas, em que muitos pesquisadores ficaram convencidos de que os fenômenos estudados deviam-se a influências de personalidades desencarnadas e, em virtude disso, depositaram sua fé na comunicação com os mortos e abraçaram o Espiritismo enquanto religião. Mas, isso são opiniões e decisões pessoais.

A Parapsicologia nunca se envolveu com decisões de ordem pessoal. Ao contrário, a Parapsicologia sempre se pautou em dar respostas naturais aos fenômenos, com base numa metodologia rigorosa, apesar das dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores, em virtude da natureza particular e extraordinária desses fenômenos. Imagine-se, apenas como exercício, o impacto que deve ter sido, num primeiro momento, uma mesa dar respostas aparentemente inteligentes através de pancadas, sem contato de qualquer pessoa. Contudo, diria Guimarães Rosa, o tempo é engenhoso e muitas coisas foram explicadas. Outras, ainda, estão para serem explicadas.

Inclusive, devemos ser cautelosos. O fato de não termos uma resposta para determinado tipo de fenômeno, dentro do universo parapsicológico, não implica que devamos atribui-lo ao sobrenatural. A convicção que temos, repito, é que os espíritos que povoam esse universo paralelo e desconhecido, se existirem, nada têm a ver com a Parapsicologia. Até o presente momento, como já o dissemos repetidas vezes, nenhum fenômeno estudado em laboratório apontou para participação de entidades desencarnadas. Insisto, portanto, em dizer que o fato de não sabermos explicar este ou aquele fenômeno não nos dá o direito de atribuí-lo ao sobrenatural. Isso não é fazer ciência.

Temos que ter sempre em mente que a Parapsicologia não está envolvida com crenças. Os fenômenos parapsicológicos não nos dão o direito de acreditar ou não neles. Não são uma questão de crença.

É fato, todavia, que há parapsicólogos católicos, há parapsicólogos espíritas assim como há parapsicólogos ateus. Da mesma forma há profissionais de saúde católicos, budistas, evangélicos, espíritas, ateus etc. Contudo ao tratar de um doente, esse profissional deve valer-se do conhecimento disponível em sua área de formação. Nenhum paciente pode ser tratado em uma UTI com base em duas orações de três em três horas. Em Parapsicologia é o mesmo. Temos que usar os recursos da área para orientar, observe-se, orientar, não tratar, aqueles que enfrentam problemas de ordem parapsicológica. Essa orientação é puramente técnica. Talvez, aqui também, um exemplo seja esclarecedor. Vejamos: Os fenômenos, raros diga-se, das chamadas casas assombradas. Muito bem.

Quando um parapsicólogo vai ao lugar e constata não se tratar, a primeira vista, de fraude, ele deve orientar a família com base no conhecimento acumulado pela Parapsicologia. Um parapsicólogo treinado sabe enfrentar essa questão e está preparado para orientar as pessoas envolvidas.  Seria inconcebível um investigador da área solicitar orações para espantar os maus espíritos. Para a Parapsicologia os espíritos, demônios ou o que possa pertencer ao mundo sobrenatural, se de fato existirem, não tem participação nesses casos. Vejo, contudo, alguns autodenominados parapsicólogos que mandam fazer orações e até praticam exorcismos no local. Inclusive podemos ver em canais a cabo programas inteiros sobre tais "investigações paranormais", que adotam insustentável prescrição.  Ora, a farsa está em estes "investigadores" se autodenominarem parapsicólogos. De onde saiu tão atabalhoada compreensão da Parapsicologia?

Os grandes iniciadores e tratadistas, Charles Richet, René Sudre, Joseph Banks Rhine, só para citar alguns dos mais importantes, jamais fizeram algum tipo de associação entre sobrenatural e fenomenologia parapsicológica. Ao contrário, nos alertam para esse erro. Cabe aqui um aparte.

Parapsicólogo é apenas um título de identificação para aqueles que se dedicam ao estudo da Parapsicologia utilizando-se de uma rigorosa metodologia. Não basta olhar para o movimento, sem contato aparente, de um objeto qualquer e, de imediato, associá-lo a um fenômeno de telergia. Não é assim. Esse comportamento seria, no mínimo, reprovável. Há muita confusão nesse sentido.

A Parapsicologia não é uma profissão regulamentada no Brasil e, até onde sei, em nenhuma parte do mundo. Apregoa-se, por vezes, que dissertações e teses foram defendidas em universidades, tanto no Brasil, como em outros países, em Parapsicologia. Esclareçamos, contudo, que o objeto de estudo foi a Parapsicologia. De fato. Mas o trabalho foi apresentado ao departamento de Psicologia, Medicina, Física etc. O diploma recebido, em virtude do grau que confere ao pesquisador, virá como mestre ou doutor em Psicologia, Medicina ou Física. Jamais como mestre ou doutor em Parapsicologia. Se isso ocorrer será através de cursos livres, não importando o grau oferecido por tais cursos. Ou seja, cursos não oficiais.

Isso, contudo, não significa dizer que o curso seja de baixa qualidade. Essa relação entre curso livre e baixa qualidade é delicada. E nem sempre reflete a verdade. Pelo menos, não necessariamente.

Todavia, essa afirmação desencontrada que atribui formação específica em Parapsicologia em instituições sejam elas universitárias ou não universitárias, assim como institutos e centros, dá-se por anúncios pouco claros.

Vi, há tempos, aqui em São Paulo, uma propaganda de um curso de formação superior em Parapsicologia, dizendo que o curso estava autorizado pelo Ministério da Educação, MEC e até exibiam orgulhosamente o Parecer de autorização para funcionamento do curso. Ora, o que foi relatado no Parecer, orgulhosamente exibido, é que não cabia ao MEC autorizar tal curso, podendo, contudo, ser oferecido, se assim a instituição o desejasse, como curso livre - mais uma vez - sem necessidade de fiscalização por parte dos órgãos oficiais.

Assim, deve ficar claro que o MEC, através de seus órgãos consultivos, não autorizou, nem desautorizou a oferta do curso, por uma única e simples razão: não é de sua competência, pelo menos enquanto não existir uma proposta curricular abrangente, autorizar ou desautorizar tais cursos. A posição do Ministério é clara e extremamente coerente. O resto é propaganda veiculada de maneira fora dos padrões necessários para uma informação clara.  

Devemos dizer, ainda, que não cabe à Parapsicologia, em minha opinião, buscar profissionalizar-se com atribuições que ultrapassem os limites estritos da pesquisa. A Parapsicologia deve lutar por um lugar ao Sol enquanto uma área de conhecimento voltada exclusivamente para a investigação, jamais associada a qualquer tipo de prática terapêutica, mesmo alternativamente. A razão é simples: não há nenhuma evidência conclusiva em que se associe diretamente paranormalidade com patologia. Tanto Richet, o primeiro tratadista sobre a matéria, quanto Rhine, o grande incentivador da Parapsicologia acadêmica, manifestaram a mesma convicção.

Assim, afastar interpretações sobrenaturais, cuja base se fundamenta em crenças injustificadas, substituindo-as por explicações fundamentadas com base em pesquisa séria, já é trabalho árduo demais.

O desafio maior continua o mesmo desde o início das primeiras investigações controladas. Os fenômenos parapsicológicos puros são irrepetíveis. Não se submetem a uma investigação controlada com hora marcada em laboratório.  Uma monição, como queria Charles Richet, ou modernamente, uma precognição, ocorrida em virtude de uma morte, para repetir-se, o morto teria que reviver e morrer novamente para, então, aquele que teve a percepção, tê-la mais uma vez e, assim, sucessivamente, exaustivamente. Absurdo.

Por essa incapacidade de repetição atribui-se o fenômeno a alucinação, fraude, erro de observação, acaso, charlatanismo etc. Isso não é novo, como também não é nova a certeza de pessoas que ao longo de toda a história do homem relataram fenômenos que modernamente denominamos de parapsicológicos. Richet, em seu Tratado de Metapsíquica (1922: 26,27) dá um exemplo de como tais ocorrências sempre foram tratadas pelos grandes sábios.

"As alucinações, narradas por pessoas ingênuas com abundância de pormenores, pertencem ao domínio da alienação mental, e as representações dadas pelos médiuns não passam de velhacarias". Os médiuns que pretendem ser dotados de propriedades sobrenaturais e alegam ser intermediários do mundo dos mortos e o dos vivos, são ou alucinados ou farsantes. Desde que se tomem precauções contra a credulidade e a fraude, o erro e a impostura acabam sempre por serem descobertos. Perante comissões de inquérito, que têm autoridade científica, nunca um fato irrecusável de lucidez ou de movimentos de objetos sem contato pode ser firmado. Se se eliminam os acasos, as faltas de observação, os embustes - nada mais fica da chamada

metapsíquica [antigo nome atribuído às pesquisas pesquisas, hoje Parapsicologia] senão imensa ilusão. À medida que as condições de controle vão sendo mais rigorosas, os fenômenos vão sendo menos intensos - e acabam desaparecendo, por fim. A ciência que quer ser tida na conta de experimental e se apóia em experiências que se não podem repetir, não é ciência. Falais de coisas extraordinárias, inverossímeis, que põem por terra tudo o que a ciência até aqui reconheceu como verdadeiro; porém sois incapazes de apresentar uma prova do que afirmais, porque até o presente momento essa prova não foi submetida a nenhuma pesquisa metódica. Não nos compete a nós provar que o que asseverais é falso; compete a vós provar que ele é verdadeiro. Na verdade esses fatos estranhos, mesmo que os testemunhássemos, considerá-los-íamos como ludíbrio ou ilusão, porque estais entre impostores e as vossas afirmações são demasiadamente absurdas para serem consideradas como verídicas". (grifos nossos)

Esta é a postura de ontem. Infelizmente, esta é, ainda, a postura de hoje. Contudo, as afirmações feitas em relação a uma gama variada de fenômenos que ocorrem no âmbito da Parapsicologia nada têm de absurdas.

Richet, ainda nos faz lembrar que a História das Ciências nos alerta que outras descobertas, no passado, também foram repelidas sob o pretexto de estarem em contradição com a Ciência.

"A anestesia cirúrgica foi negada por Magendie. A existência dos micróbios foi contestada durante vinte anos por todos os acadêmicos de todas as academias. Galileu foi parar no xadrez por ter afirmado que a Terra girava. Bouillaud declarou que o telefone não era senão ventriloquia. Lavoisier disse que os meteoritos não caíam do céu, porque não havia pedras no céu. A circulação do sangue só foi admitida depois de quarenta anos de estéreis discussões. Um dos meus avoengos, P.S. Girard, num discurso pronunciado na Academia das Ciências, em 1827, considerava como loucura a ideia de se poder levar água, por meio de canos, a lugares elevados das casas. (...) Poder-se-ia escrever um volume completo sobre as paspalhices que foram ditas na ocasião de cada descoberta e a respeito dela própria." Ora, continua Richet, "os sábios julgam que traçam limites que a ciência futura é incapaz de romper".

Desta forma, entendemos com Richet que a ciências ao declararem que tal ou qual fenômeno parapsicológico é impossível pelas atuais leis, confundem de maneira desastrosa e inconsequente o que é contraditório com a ciência com o que é novo na ciência. A Parapsicologia vive entre dois mundos e, de ambos tem que se libertar. De um lado o mundo de uma fé celestial. De outro, o da razão infernal.  Devemos, contudo, insistir.  

José Roberto Baptista é editor da ARTE-LIVROS Editora. Foi professor universitário e Diretor-Acadêmico de tradicionais instituições de ensino superior em São Paulo. É estudioso da fenomenologia parapsicológica e autor, entre outros, do livro Introdução ao Estudo da Parapsicologia (Arké, 2007), além de já ter escrito vários artigos sobre o tema. Dirigiu o IEP-SP - Instituto de Estudos Psicobiofísicos de São Paulo voltado, exclusivamente, ao estudo e ao ensino da Parapsicologia.

 

 




 



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