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::::::::::::::::::::Pedro Proença::::
O IRRECONHECÍVEL
Soneto XVI

A rosa julga-se justa, porque favorece os que a farejam. Mas o seu odor divide-nos e aumenta a fome pelo alheio – insaciável.

Há flores que se contraíem completamente como tartarugas na carapaça para desabroxarem seguidamente de um modo completo.

A respiração é a droga mais perfeita e forte.

Muitas vezes a viuvez é pretexto para um excesso de virtude.

Há quem tema mais o despeito que a morte.

A violência da juventude é causa da sua beleza? Como destilar este encantamento acre em suave sabedoria? Ou não há sabedoria com suavidade?

Os monumentos nascem já agrilhoados – são espelhos das comunidades no seu mais intímo desespero. Os herois não podem esconjurar nem a morte nem a subjugação que a natureza ou celerados príncipes sobre nós exercem.

O poder das rimas é o excremento dos impérios.

A guerra é pretexto para estátuas que excitam tribos de cidadãos, por isso contenta-se desperdiçando vidas.

O registo vivo de memórias mortas.

A posteridade só garante ao poeta o vir a ser citado em ocasiões foleiras.

O mártir assegura a sua glória através de uma radical iniquidade.

Toda a posteridade desgasta este mundo para lá da domesticação das finalidades.

Assim o poder de julgar levanta o ego como um pénis fácilmente excitável, seja numa femea, seja num macho.

 

 

 

 


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