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::::::::::::::::::::Pedro Proença::::
O IRRECONHECÍVEL
Soneto III
 

A fachada encerra a glória em superfícies inacessíveis – não há glória interior que mereça o aplauso da história.

O olhar procura outro olhar no qual possa diluir o apelo narcísico – e quem sabe encontrar uma felicidade, como quem encena a negação tricotada de um deus abscôndito.

Procuras a Musa que te convém como um pretexto, e procurarás outras. As Musas são mais submissas que as ninfas?

A Musa é uma forma de respirar, um ritmo que te satura e que sutura os fragmentos das vívidas intenções.

Possuis argumentos doces para seres ferido por estocadas de criaturas imprudentes.

Ensaias um vulgar papel que não gostarias de ver representado – mas só mais tarde.

Dá-te mesmo que o não mereças – desde que te regozijes com isso.

O que inspira a mandrágora é a incitação à mescla: penetro um pouco mais na natureza ou faço-me penetrado por ela? – só através dessa interpenetração poderás aceder à identidade do isto com o aquilo, do absoluto com a mais mísera criatura.

Enxovalhas a persuação como algo temível, mas ela está no ar muito para lá da concretização da sedução, objectivo deveras mediocre – a persuasão não quer persuadir, só quer ser persuasiva.

O espelho encosta-se à mudez.

A vista fabrica o alheio.

O tolo escreve o que no mundo é mudo.

A luz azeteca acode-nos como uma invenção da morte.

Encontras a elasticidade no pó.

 

 

 

 


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