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::::::::::::::::::::Pedro Proença::::
NAUGHTY-NOT-ME
INDEX
Versículos 71-80
Versículos 81-90
Versículos 91-100
Versículos 101-120
Versículos 121-130
Versículos 131-140
Versículos 141-145
Versículos 101-120
101

É uma perca de tempo tentar exterminar a autoria. Não é uma operação muito diferente do exterminio de uma raça ou da propriedade privada. A autoria, tal como a propriedade privada é um roubo, mas um roubo tão ou mais necessário quanto o fogo. A autoria é o que nos torna rivais dos deuses. Mais problemáticas são as noções de originalidade ou de direitos do autor. A autoria é precisamente aquilo que se desembaraça produtivamente do mito da originalidade e que infringe permanentemente a ideia absurda dos direitos de autor.

102

O perspectivismo continua a ser a única atitude hermeneutica possível. Os enigmas só se oferecem na resposta às inquietações do presente. O que é do passado nem ao passado responde. O sentido foi vacilação de sentido, pregnancia transicional.

103

Mesmo o supostamente inanimado está em interacção. A recusa em participar é participação. Mas há duas esferas de participação: a que vai no sentido do desprazer e da simplificação, e a que vai sentido do prazer e da complexidade. Ou dito de outra maneira: a que vai no sentido da falsa separação da carne e do espirito e a que vai no sentido da conscencialização da carne enquanto espirito e do espirito enquanto carne.

104

Estar consciente é estar aberto às perturbações. Ao asfixiarmos as perturbações asfixiamos o que através de nós é expansão, vida, mundo.

105

O performativo é o que se vai formando antes da forma se formar.

106

Os conceitos são agentes secretos do indistinto que estuturaram distinções. Os conceitos podem-se criar uns aos outros mas o seu estatuto é como se fosse de algo incriado. Os conceitos são uma agitada espectralidade que procura reencarnar noutros corpos.

107

Procuramos designar qualquer coisa como um artigo que busca mais substancia que a dos substantivos.

108

Só forjamos diferenças a partir da focagem que as tautologias nos abrem. São as tautologias que nos homogeneizam a percepção formando narrativas espontaneamente.

109

A repetição da designação de um objecto não o faz aparecer mais, embora a insistência pareça ir nesse sentido: a rose is a rose is a rose ou o what you see is what you see. Pelo contrário, a negação repetida de qualquer evidência faz com que qualquer coisa realmente apareça, embora uma designação não seja imprescindível. O que aparece é o que se opõe a qualquer silênciamento, místico ou não.

110

A indeterminação começa ainda antes do sujeito. Desanima-se no meio das nossas subjectividades e prossegue o seu caminho tentando contornar as mais diversas causalidades.

111

A origem e a finalidade são os extremos trágicos de uma comédia. O intermédio é ridiculo e vem cheio de inextricáveis dificuldades. Sem dificuldades não há diferenças. O que é comunicável é a diferenciação a que julgamos que gostariamos de fugir. O que nos regenera é aquilo que antes temíamos.

112

A competição é uma adversidade imaginária que cultivamos para não nos repertirmos comodamente.

113

Poderiamos ver por espelhos e enigmas, mas os espelhos estão partidos e os enigmas incompletos.

114

As medidas em vez de regularem as desmesuras acabam por excitá-las. A tecnologia tornou-se a medida da humanidade libertando uma natureza titânica anterior à natureza olimpica.

115

As intenções engravidam o sentido. Mas a maior parte das vezes abortam.

116

A sinceridade consigo mesmo é insuficiente. Falar convincentemente de sinceridade é camuflar uma ignorância. Mas não podemos deixar de confiar nessa estratégia de sincera dissimulação que nos torna mais enxutos, mais honestos e mais confiáveis.

117

A confiança reciproca é uma aposta que arrasta consigo muita confusão. Qualquer amizade ou compromisso é um enterlace de simpatias e de compromissos que atraiem demasiada confusão. É essa confusão que assassina as amizades ou que as salva da estagnação.

118

A linguagem e o silêncio já disseram tudo menos as improváveis traduções que se desviarão defenitivamente dos falsos sentidos originais.

119

A incrível credibilidade do que nos afecta.

120

Os factos são bifurcações no sentido de humor que sustenta o mundo.

 
 
 

 

 

 


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