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Pedro Proença......

DO AMOR E MUITO MAIS OU O ASSENHORAMENTO DOS SONETOS SEGUNDO SONIANTONIA & SANDRALEXANDRA : INDEX

O CARACOL ESCOLÁSTICO

Acuse-me assim não o mundo, porque não tem boca, mas a gente que por cá anda a decantar-se (e desdentar-se) em redobrados ressentimentos, pois tenho decantado de tudo um pouco, e tenho bebido acompanhada de mim e de quem muito me aprovera. Não faltam paixões nem contentamentos para rechear memórias e enchê-las de vaidosos emblemas. Estou cá para isto, não para me desertificar em depenadas penas.

Gladiadores escolásticos entram nas palavras como num contencioso mortífero – é certo que a linguagem é súbtil, mas está pejada de andrajosas armadilhas. E há um enrubescimento eristico que toda a teoria supõe – mesmo quando falas do amor entras em guerras filosofais, e falando com candura das subtilezas e das atracções entras em plena guerrilha verbal.

Os ventos pouco surpreendem o caracol que sumamente se habita e nomádicamente distribui a sua baba – e eu aqui, junto à fronha, também caracoleio, e devaneio sobre romanas damas saídas dos frescos violentamente coloridos das pompeias.

O tiro sai pela culatra, mesmo quando não disparas e estás desarmado.

Mas também te posso garantir a constância, virtude arcaica, sem afectações de tédio – basta sermos outros a cada momento, actores que se multiplicam na heteronomia de serem o mesmo. Os condimentos são amigos do bom senso.

Façam-se nossos os apetites mais afiados, com compostos ansiosos, e ceda-se ao melancólico impulso do palato.

Somos enfermos de uma doença que já removemos.

Apesar desta ruina de afectos ainda devo estar cheio de fragmentos de doçura...

Molhos amargos emolduram-me como alimentação – sou um festim deveras brejeiro, mas terás que passar a àcida prova do molho para chegares à mais tenra carne.

Podes queixar-te da carne, mas não da carnalidade.

A política no amor antecipa outras revoluções que só são sociais nas redes de aspectos partilháveis – não somos internas senão nos orgãos que devagarmente morrem. Quanto às interiorisses são paleio de uma linguagem doente que qual crocodilo esfomeado, se prepara para nos ferrar inclementemente o dente.

Os implantes mamários da retinta deusa dão uma lição de beleza a cabeleireiras que gostam de paus de cabeleiras. Não se trata de um mero caso de futilidade ou de imagem – há uma coragem ignóbil em nos sentirmos borrachosas, egipciamente sintéticas, no que é inutil embalsamento sem piramidais eternidades.

Sítios do Autor

http://www.sandraysonia.blogspot.com/ 
http://juliorato.blogspot.com/ 
http://www.pierredelalande.blogspot.com/
http://www.tantricgangster.blogspot.com/
http://www.budonga.blogspot.com/
http://www.renatoornato.blogspot.com/
PEDRO PROENÇA. Nascido por Angola (Lubango) pouco depois de rebentar a guerra (1962), veio para Lisboa em meados do ano seguinte, isso não impedindo porém que posteriormente jornalistas lhe tenham descoberto «nostalgias» de Áfricas. Fez-se rapaz e homem por Lisboa, meteu-se nas artes e tem andado em galantes exposições um pouco por todo o mundo, com incidência particular no que lhe é mais próximo. O verdadeiro curriculum oficial mostra muita coisa acumulada com alguma glória e devota palha. Tem ilustrado livros para criancinhas e não só, não porque lhe tenha dado ganas para isso, mas porque amigos editores lhe imploraram. Também publicou uma estória entre as muitas de sua lavra (THE GREAT TANTRIC GANGSTER, Fenda, em edição que, por estranhos motivos, foi retirada de circulação), um livro muito experimental de ensaios (A ARTE AO MICROSCÓPIO, também da Fenda) e um grosso livro de poemas comentados com imagens (O HOMEM BATATA, editado pelo Parque das Nações). Compõe, mediocramente, musica no seu computador, e é um yogui quase consumado.

Pedro Proença. Born Lubango, Angola, 1962. With an exhibition in the Roma e Pavia Gallery in Oporto, at the end of the 80's he begins, a cycle of installations which have continued until today, and make up a work in progress. These works, which use such poor materials as indian ink drawings on paper, are structured according to previous architectures or constructions which emphasise the multiplication of the dynamic planes of framing. In this decade he has exhibited paintings which complement these installations, aiming at serialising the "plurality of the subject", and permanently responding to questions in the artistic field (current ones or uncurrent ones), to which he cannot remain passive. As it is known that he is also engaged in a literary activity which is beginning to be published, his works should be seen as a coming-and-going within this controversial space which confronts images with words, either as "allegorical appearances" or as "narrative possibilities".

 

 

 


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