20.45h. Café Carlyle, The Carlyle, na chic Madison Avenue.
O pequeno café concerto cheio de belissimas pinturas nas paredes ( à peine visiveis) e decorado numa onda muito Art Déco, onde as luzes são quentes e escondem a cara de quem lá janta ou bebe apenas um copo, tem lotação máxima para cerca de 50 pessoas. 50 sortudos, mais precisamente. Porque, nessa noite, vão ter a oportunidade de ver e ouvir tocar ( quase “em cima”), o realizador mais inteligente, perspicaz, o tal da Annie Hall, da Maldição do Escorpião Jade e de tantos outros clássicos do cinema contemporâneo. Actor, realizador, produtor e agora músico, Woody Allen é um apaixonado do “ New Orleans Jazz”. Prova disso, são os concertos que o descem á condição de simples ( mas não tanto) mortal, às segundas feiras, no pequeno e luxuoso café concerto do “ The Carlyle”.
Conseguir uma reserva é uma sorte, mas como nada é impossível lá consegui. O consumo, é minimo dentro do máximo, claro. Ou não estivéssemos no The Carlyle e a estrela da noite não fosse Woody Allen.
Alguns vão jantar outros vão apenas a tempo de conseguirem um bom lugar e beberem uma flute de champanhe. O serviço é excelente, os empregados, são as segundas estrelas da noite com o seu ego inflamado , mas nem por isso menos simpáticos ( pelo contrário!), encontrões não faltam e se é avesso a tal, prepare-se para uma noite cheia deles, esteja sentado “ calmamente” a jantar ou de pé ou no bar.
Cerca das 8.30h, começam a chegar os primeiros músicas da banda. Pois sim, lá estão todos eles, desde o “ senhor do banjo”, à pianista, ao excelente trompetista ( um dos grandes talentos e pontos fortes do “ ensemble”).É fácil reconhecê-los. São tal e qual como no “ Wild Man Blues”. A ansiedade de ver WA chegar é mais que muita e todas as cabeças se viram para a porta por onde entraram os músicos da banda. Mas... não é por aí que entra a nossa estrela da noite. À boa moda americana, e como manda o star system, WA entra sem darmos por ele , pela porta das traseiras, com o estojo do clarinete na mão, olhos vidrados no chão. Como está vestido? Bom, tendo em conta que estamos m Maio e o calor aperta, logo pensamos que a sua SunYi, não toma lá muito bem conta dele: blazer castanho de inverno, camisa azul, com t-shirt branca por baixo e calças ( quentes!) de veludo castanho. O cabelo está completamente branco e faz jus aos seus cerca de setenta anos.
Continua de olhos centrados no chão, quase que a pedir que não olhemos para ele que é impossível e assim começa um concerto “ familiar”, que todos apostam ser- como o capricho de uma estrela manda- curto, cerca de uma meia hora.
Woody Allen toca clarinete com a potência de um hamster. O que é delicioso. Faz-nos lembrar Sherlock Holmes com o seu violino, mas muito superior. Nos intervalos das suas “ deixas” volta a olhar para o chão – ignorando o público e a banda- e assoa-se sempre que pode.
O alinhamento é ele que o decide na própria hora, consoante os seus “ moods”.
O ambiente na sala é frenético, não param as fotografias, as máquinas de filmar, e, alguns mais ousados, juntam-se à banda para cantar nalgumas músicas. É aqui que vemos “o “ WA dos filmes, com o olhar cáustico e gozão e sobrancelha levantada como que a dizer “ donde é que esta saíu???”. Encolhe os ombros, gargalhada geral e o concerto continua. E a meia hora, já está numa hora.
O ambiente continua a aquecer e woody dá mostras de estar a gostar, pelo que o chão já não é o interlocutor dos seus olhos. Et voilá , finalmente, alguém bem disposto, solto, a tocar o seu clarinete ( quando não o está a limpar, de cada 5 em 5 segundos, no meio de cada música) para um público completamente “ enfeitiçado”. Não é todos os dias que se vê um dos nossos ícones, a dois palmos de nós, a tocar para nós!
No meio de tanta excitação, uma sul-americana não pára de dar vivas e “ urrah!” a todo o momento, o que leva woody, num tom só seu a dizer “do we have to shooter her?”.... Gargalhada geral!
O concerto acaba ao fim de duas horas e numerosos encores sempre correspondidos. Todos estão contentíssimos! Os empregados, os músicos, a estrela, o público, todos.
Somos prevenidos que woody vai sair como entrou: pela Back door. E que podemos tirar fotos e pedir autógrafos. Foi o que fizémos e foi o que eu fiz.
Resultado da noite: uma foto com WA, um autógrafo de wa ( não, não está à venda!) e uma noite única!
Não me venham dizer que algumas estrelas não são simpáticas, depois disto. Estrela sim, Genial, sempre. Mas humano. Convém não esquecer.
Woody Allen
With the Eddy Davis
New Orleans Jazz Band
Mondays 8:45 PM
$ 75 cover
Café Carlyle- The Carlyle
Madison Avenue at 76 th Street
Reservations: 212 744- 1600