Estava eu, rapariga moderna, numa noite de insónias a ver em acto de desespero a Oprah - Já compreendi que devo ser a única mulher portuguesa que não quer ser ou ter um programa como o da Oprah* (sou da velha guarda, para mim não há nada como a grande Barbara Walters a linchar um convidado com muito profissionalismo e toca a andar!), quando me deparo com um programa deveras homogéneo e díspar ao mesmo tempo. Para quem viu o filme “Freaks” – a preto e banco, tal como o programa da Oprah - só lá faltava a anã e o resto das aberrações. Voltando ao tema do programa em si, como não apanhei o início, presumo que fosse “Se vai sair do armário, não saia sozinho, saia em familia”. “Pois que” começamos com um casal feliz, o tipico casal dos subúrbios americanos, que sonha com a “white picket fence”, filhos, e um casamento feliz, cheio de desejo, cumplicidade e outras aberrações relacionais nos nossos dias. Tudo normal. Até a manhosa da Oprah começar a fazer as suas perguntas sempre tão bem preparadas a nível cénico - lá temos de lhe dar crédito por isso, isso temos - e trálálá, rebéubéu, pardais ao ninho, quando no primeiro casal feliz, a bomba estoirou e afinal ele e ela eram gays. Ela soube dele no dia em que se casou, ele soube por ela, ao fim de dez anos de casamento. Tudo normal. Hoje, com os respectivos companheiros, à boa moda americana, partilham milho e galinha do Kentucky Fried Chicken, muitas calorias e toda essa “closet-thing-oh-yeah-that’s-awson-where-free-and-happy-and-honest-now” que ainda me faz mais confusão do que a relação da Oprah com a sua melhor “amiga” (?), uma tal de Gayle, que anda lá sempre no programa. O programa continua, e vamos para o main course : mulheres casadas há “n” anos que decidiram dar uma de L-Word com as vizinhas mais à mão de semear. Tudo normal. Os maridos, esses, não tiveram outro remédio, senão... sairem do armário também. Normalissimo, tudo normal, aliás. Terminando o programa, a boa da Oprah, a “ Rainha Mãe da Manipulação”, entrevista um dos filhos do ex-casal-hetero-da-white-fence-actual-casal-gay-cada-um-para-seu-lado-o-que-faz-deles-quatro-lá-em- casa, um miúdo com um ar “hélàs!” baralhado mas seguro (?!), que no alto dos seus treze anos se assume como gay desde os cinco, mas que está muito feliz por ter uma... namorada, agora. Tudo normal. Tudo normal. Entre os “uows!” os “ hey’s” da Sôdôna Oprah, no meio de tanta confusão sexual, acabei por ir dormir. Acreditem, bem ou mal, graças a esta salganhada toda há muito tempo que não tinha sonhos tão... “normais”?! Pensando melhor, se é isto que é preciso fazer para se ter um sonho carregado de erotismo, eu “abono-me” já à coisa da Oprah. So to speak. |
*Nota: Por motivos diversos: o meu fond de teint é de marcas que não o da Ìman (a do Bowie) e gosto bem de ser caucasiana, mesmo que em TV isso me traga menos audiências e dissabores, se num futuro próximo decidir optar por tv e termos os mesmos moldes cá no país da Tuguice em termos de audiências que nos EUA. Veja-se, por exemplo, a Júlia Pinheiro: substituiu o tom tostado de pele pelos gritos e pimba toca de subir audiências! Concluindo, cá no burgo, o que interessa, nowadays, são os decibeis, não o grau de natural tanning da nossa pele, que nos permite manipular o grau de imbelicidade do que vai nas cabeças dos espectadores.
Publicado em Outubro de 2007, Perspectiva.
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