O ser humano tem inúmeros dons. Pode criar perfumes, odores, captá-los e guardá-los na alma e no coração durante instantes ou para o resto da vida.Todos temos, dentro de nós, um Jean-Baptiste Grenouille. São assim as relações humanas: pautadas pela curiosidade. E assim, ao longo da vida, todos nós vamos captando cheiros, odores que nos marcaram e marcarão para sempre. Odores de pele de alguém que amámos, ou, simplesmente odores de pele de alguém por quem, um dia, nos sentimos atraídos. Eu acredito que pelo cheiro da pele podemos conhecer a alma de alguém. Por isso, há pessoas que cheiram a mar, por mais perfume que tenham em cima. Por isso, há pessoas que têm um cheiro de pele intenso do qual nunca mais nos esquecemos. Por isso, há pessoas cujo cheiro da pele nos passa quase inapercebido e é por isso que nos lembramos delas. É que na ausência ou quase ausência de cheiro, a nossa alma grava tudo. O nosso coração sabe e vamos descodificando com a ajuda do cheiro da pele do outro, como o outro é. Saber, por exemplo, que alguém tem um cheiro intenso que serve de carapaça para não ser visto. Ou um cheiro tão suave, que nos diz “descobre-me, anda.” O cheiro da peleé das linguagens mais bonitas alguma vez inventadas. Diz-nos se a presença do outro nos deixa com o estômago aos pulos ou nem por isso. Como tudo na vida, há linguagens que existem e não as sabemos falar. Mas a linguagem da pele é acessível a todos. O problema é que só a fala quem quer ver mais ou quem não quer ver de todo. É uma questão de carapaça. Mas até essas têm cheiros....
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