O meu querido Frederico colocou imagens antigas do meu pai no seu blog, http://paramimtantofaz.blogspot.com/ , quando dirigiu várias comissões de inquérito de peritos de um certo caso. As tais. As tais, que vieram dizer, pela voz e assinatura e coragem do meu Pai e da restante equipa, que Camarate tinha sido um atentado. Se há coisa da qual me orgulho, é de o meu Pai ser reconhecido como um dos melhores químicos forenses que "por aí andam". Foi o primeiro a saber utilizar um Microscópico Electrónico de Varrimento em Portugal (eu sou de ciências, logo é-me fácil dizer e conhecer tudo isto de enfiada). Era o único, cá e um dos poucos na Europa.
Acompanhei-o, entre outros lados, a Israel, em Nethania, a um colóquio de químicos forenses peritos sobre terrorismo. As familias dos cientistas ficaram uma semana numa aldeia privada com praia (privada) e piscina onde os helicópteros sobrevoavam o spot a toda a hora e nós, as crianças, falávamos do que cada um dos nossos pais fazia, como se fôssemos - dou-me conta, olhando agora para trás - autênticos "freaks". Nenhum de nós levava uma vida normal. Dormi em quartéis em Israel. Vivi em Espanha dois anos, por causa da profissão do meu pai. A minha pré-adolescência, no Liceu Camões (onde o meu pai também estudou), era povoada por beijinhos ao pai no Laboratório de Polícia Científica, nos intervalos das aulas e desde cedo me habituei a atravessar o corredor até chegar à sala do lado esquerdo cheia de instrumentos, monitores (tipo estúdio de música) e azoto líquido (que uma vez distraído!, o meu pai me enfiou nas costas, sem querer, o que nos valeu umas boas gargalhadas... enfim, boas recordações - apesar de que, mais cinco segundos, e teria ficado sem costas...).
O laboratório estava repleto de fotografias de autópsias, locais e simulações do crime, dos colegas da balística (adoro armas, creio que foi aí que começei a gostar de armas de fogo, as brancas detesto - é o que dá ser regida por Marte, o Deus da Guerra, aka, Carneiro), que eu adorava e eram divertidos.
Não tive uma adolescência comum. Nunca me consegui habituar à foto da senhora autopsiada que me olhava no lado direito da porta da entrada com as cictarizes pescoço abaixo e sempre, mas sempre que por lá passava, virava a cara. Outra foto que nunca suportei era a de uma mulher morta por espancamento com a respectiva reconstituição do rosto (Não era propriamente Chagall...). Parece um filme, mas não é. É a minha vida. A do meu pai. A nossa.
Depois, vieram as FP25, mais histórias inenarráveis que o meu pai prefere esquecer e nunca falar delas, como a queda de um avião no Algarve em que nos destroços o meu pai encontrou mãe e filhos abraçados, carbonizados. E tudo isto, às vezes tão dificil de ver, de suportar. Ele falou nestes episódios uma vez, apenas. Mas chegou. Chegou para eu saber o quão fascinante mas dura era a profissão do meu pai. Estava sempre onde a morte estava, nos sítios mais escabrosos, da forma mais tenebrosa. Às vezes chamavam-no do piquete e lá ia ele, a meio da noite. Mais um homicídio, uma mulher baleada na cabeça, um fogo posto por causa de um crime passional.
Depois, Camarate. Creio que o meu pai presidiu a 3 ou 4 comissões de inquérito. A equipa era excelente, tinha inclusive uma professora (uma das mulheres mais inteligentes que conheci - tão brilhante que dava aulas também no Técnico - eu era sua aluna na FCT_UNL - e ninguém nunca percebia o que ela dizia, de tão upgrade ser o seu intelecto), a Engª Ondina Figueiredo, que me dava aulas de "Química Física de Sólidos e Superfícies" e "Cristalografia" ou " Cristaloquímica", no decorrer das ditas comissões. Lembro-me dos olhares cúmplices entre as duas nas aulas, como quem diz "não está fácil".
Não foi fácil. Para ninguém. Para o meu pai, que sofreu um enfarte no decorrer do processo, de tantas ameaças que recebia. De tantas provas que, de repente, desapareciam. De peritos ingleses que um dia diziam que sim, que a equipa portuguesa estava certa e passado dois dias mudavam de "opinião" e desdiziam-se, descredibilizando a equipa portuguesa, ie, o meu Pai, pois era ele que dava a cara.
A pressão dentro da própria PJ era enorme. O Dr. Fernando Negrão foi um apoiante incondicional do meu Pai e estar-lhe-ei sempre grata por isso, ainda que ele não saiba quem eu sou, nem saiba da minha gratidão. Ameaças, ameaças, verdadeiros interrogatórios de doze horas a que o meu pai era submetido na nossa "ilustre" Assembleia da República, como se fosse ele o autor do atentado. As ameaças continuaram, sempre achei o meu pai em certas alturas muito estranho, mas nunca disse nada. Contou-me depois que, cada vez que ia depor, lá vinham as ameaças, a mim, a ele. Sempre. O que mais me orgulha no meu pai, é ter tido a coragem de dizer o que lhe diziam as provas, os testes, a intuição, os restantes peritos da sua equipa de quem tanto orgulho tinha (e isso era das poucas coisas sobre as quais ele falava, e muito!) e que também andou sob ameaças, sob escutas.
Quando hoje revi as imagens do meu pai que o Frederico me mostrou no seu site, vindo de Inglaterra - onde lhe tinham dito que sim, que a "nossa" equipa estava certa e que tinha sido atentado - senti um choque. Porque nos dias a seguir vieram mais pressões, ameaças, tentativas de descredibilização e uma "nega" dos forensics ingleses. Um balde de água fria para todos.
Entre pais e filhos, já se sabe que as coisas não são fáceis. Para mim, o meu pai não é o José Anes da Grande Loja. Para mim, o meu pai é o estudioso que adora partilhar o que investiga e sabe sobre a Regaleira, o Convento de Cristo, sobre Esoterismo, Simbolismo, a Table d'Émeraude (ah, quantas vezes o ouvi desde pequena em palestras na Casa dos Avelares em Sintra!), a Geometria Sagrada, Fernando Pessoa. Mas sobretudo e depois de hoje, depois de rever estas imagens, o meu pai é o José Manuel Anes, o tal que disse um dia que Camarate tinha sido um atentado. E pagou caro por isso. Hoje, só tenho - apesar das lembranças que não são as melhores, pois também sofri as mesmas ameaças na pele - a agradecer ao Frederico Duarte de Carvalho, por me lembrado que o meu pai é mesmo um herói. Para mim e para muito boa gente.
Só o nojo e a revolta do que (não) se passou é que não passam. E não creio que passem algum dia. Até se saber a verdade. Coisa que, claro está, nunca acontecerá. |
Ana Maria Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta "bombista-literária" em que não se levando a sério- porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...-, decidiu inconscientemente (sabe-o agora!) romper certos tabús, preconceitos e lobbies, fossem eles de mentalidades, costumes, ou mesmo de determinados grupos. Sem pretensiosismos mas admitindo que a coragem e a frontalidade (desconcertante) são os pontos fulcrais da sua personalidade, conseguiu estabelecer-se na imprensa escrita (Dna, Expresso, Correio da Manhã, O Independente, Gente Jovem, Maxmen) como a "arruaceira" de serviço a quem convidam sempre para restruturações ou projectos novos. Já na rádio, fez "mossa" na Rádio Cascais (CSB) onde fazia dupla a animar as manhãs e na Rádio Comercial com o podcast sobre sexo ("O Corpo é que paga") com o Diogo Beja, animador residente da estação. Já vai no quarto blogue, porque se aborrece de si própria e dos outros facilmente e gosta, sobretudo de começar de novo. Já passou pela Endemol (dptº comercial), é assessora da Câmara de Sintra - do pelouro da Cultura - para desânimo de muita gente. Ou a adoram ou a detestam. A Fé move a sua vida, tanto que o seu lema é "see the ball, be the ball". Tem uma familia excepcional a quem deve tudo o que é. São todos originais e diferentes. O que é bom. E ela, a original-mor, tem muito orgulho nisso. |