:::::::::::::::::::RUY VENTURA:::::

POESIA ORAL COM AUTOR:
UM TERRITÓRIO ULTRAPERIFÉRICO

FRANCISCO ANGÉLICO:
O meu pai era lavrador

O meu pai era lavrador

e por sua morte herdei eu

as asas duma caldeira

e a copa dum chapéu seu

 

Era um homem alumiado

que vivia naquela serra

tinha sete palmos de terra

onde foi sepultado

e tinha um rabenejo dum arado

que me deixou por favor

e tinha o aro de um tambor

tinha os canos duma meias

e nas herdades alheias

o meu pai era um lavrador

 

Tinha um monte que era um recreio

século a século é que o caiava

e todos os anos engordava

um porco de quilo e meio

vivia farto e cheio

e do que tinha nada comeu

tinha uma burra que morreu

que de velha não podia andar

e tinha umas dívidas por pagar

que por sua morte herdei eu

 

Tinha também uma colmeia

que dava mel que era um regalo

cada vez que ia crestá-lo

dava-lhe chemita e meia

tinha o gancho duma candeia

tinha o aro de uma passadeira

tinhas as travessas de uma cadeira

o meu pai quando morreu

e por sua morte herdei eu

as asas de uma caldeira

 

Deixou-me uma velha de idade

toda cheia de filhinhos

e deixou-me cá todos os caminhos

para eu passar à vontade

e deixou-me a liberdade

de mandar no que era meu

como ele enriqueceu

e eu espero ser rico

deixou-me as bordas dum penico

e a copa dum chapéu seu

FRANCISCO ANGÉLICO (Navarro, 1980: 29 - 30)

 

 




 



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