:::::::::::::::::::RUY VENTURA:::::

POESIA ORAL COM AUTOR:
UM TERRITÓRIO ULTRAPERIFÉRICO

MANUEL PAQUETE:
Eu nunca soube mentir

Eu nunca soube mentir

Eu só sei falar verdade

Eu já vi chover albardas

Quinze dias numa tarde

 

Quando a minha avó nasceu

Já meu pai engatinhava

À pedra acorria eu

Cada vez que a encontrava

Ela bastante me ralhava

E eu fartando-me de rir

Deitadinho a dormir

Esse tempo já passou

Batia no meu avô

Eu nunca soube mentir.

 

Quando o meu bisavô nasceu

Tinha eu catorze anos

Usava botas sem canos

Que o pai dele me ofereceu

Nesse tempo estava eu

Já avançado na idade

Tinha muita habilidade

Não sabia fazer nada

Comia sopas com uma enxada

Eu só sei falar verdade

 

Tenho sido um homem bom

Como eu não há segundo

Fui no princípio do Mundo

Chefe de uma repartição

Já estive dez anos num verão

Em fiscal das estradas

Eu vi seis pulgas ferradas

Com ferraduras de rompão

Numa casa debaixo do chão

Eu já vi chover albardas

 

Vi um picarete de sola

Vi um morro de manteiga

Vi lavrar com uma pega

Vi um mosquito jogar à bola

Vi um burro andar à escola

Com oitenta anos de idade

Vi na avenida da Liberdade

Duas pretas muito vermelhas

Já vi ordenhar ovelhas

Quinze dias numa tarde

MANUEL PAQUETE, n. 18/10/1925, Grândola (Curto, 1982: 59)

 

 




 



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