:::::::::::::::::::RUY VENTURA:::::

POESIA ORAL COM AUTOR:
UM TERRITÓRIO ULTRAPERIFÉRICO

FRANCISCO HORTÊNCIO:
Foi o grilo degredado

Foi o grilo degredado

Lá p'ròs campos de manobra

Por dar uma navalhada

Na barriga a uma cobra

 

Quando aquele barulho se armou

Havia razão p'ra isso

Foi por causa do ouriço

Que mandou vir e não pagou

Foi quando o ralo se zangou

E saiu com o seu cajado

Foi aquele barulho armado

Pancada que até fervia

Por três anos e um dia

Foi o grilo degredado.

 

O lagarto está de cama

Com a cabeça escavacada

Deu-lhe o sapo tanta lambada

Que atirou com ele à lama

Salva a minhoca por fama

Bicho cego que todo se dobra

Deu no escravelho uma sova

Que lhe partiu a cabeça

E despacha o gafanhoto a sentença

- Vai p'ròs campos de manobra.

 

Salta a carocha de bordão

E o lova-a-deus de navalha

P'ra vencer esta batalha

Vá a lesma p'rà prisão

Salta o caracol fadistão

Aqui não vai haver mais nada

Afincou uma bofetada

Na cara da centopeia

E vai o rato p'rà cadeia

Porque deu uma navalhada.

 

A lagartixa por ser mais fina

Sabia o jogo da frecha

Afincou um grande brecha

Na cabeça da doninha

A carocha toca a buzina

Salta a aranha que nem uma pólvora

Aqui vai haver mais obra

P'ra acabar este barulho

Até tirou fora o bandulho

Na barriga de uma cobra.

FRANCISCO HORTÊNCIO, n. 1895, Santiago do Cacém (Curto, 1982: 80)

 

 




 



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