RUY VENTURA
HABITAÇÃO DO TEMPO
calor
 

surgiu, primeiro, como um título breve,
acompanhando a superfície da montanha –
a cor da terra, dentro do sangue,
o suor do nascimento.

ficou, depois, entre faixas e melodias,
sobre o lençol (de água?)
onde permanecia esse rosto
– o grito que revelou o mundo.

longe, o forno. a palavra
acalentava o corpo, sobre as ervas,
debaixo de um castanheiro.

desenhou então nalguns grãos de trigo
a luz que restava sobre o telhado.

a mão afaga o cabelo.
a face procura a face.
a mão procura o barro. recria,
transcreve para sul este poema.

a expressão ilumina as videiras.
o pastor ilumina a face.
rejubila até atingir a altura.
a pedra permanece
como legenda do tempo. transcreve
um movimento de mãos
em direcção à serra.

a mãe acolhe o filho no seu manto.
olha esta criança como se quisesse
reavê-la no seu seio.

um corpo nasce nas mãos do oleiro.
um corpo desce. procura
a raiz, a porta, a lareira.

acenderá o mundo com o seu sopro.
com a sua voz.

 

Covas de Belém (Portalegre) –
“Nossa Senhora de Belém”,
escultura em barro (séc. XVIII)

 

 




 



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