:::::::::::::::::::RUY VENTURA:::::
A arquitectura e o seu uso

Confesso que me entusiasmo sempre que vejo ser construído na minha cidade de nascimento (Portalegre) um edifício com qualidade arquitectónica evidente – ou quando uma obra restitui vida a edifícios ou estruturas históricas, até aí moribundos.

Assim aconteceu com as recuperações do convento de Santa Clara e da igreja de São Francisco, com a devolução à sua dignidade jesuítica da igreja de São Sebastião, com a adaptação do palácio da rua da Figueira, com o restauro das muralhas e do castelo, com a construção da igreja de Santo António nos Assentos. Gostaria até que recebessem o mesmo tratamento outros edifícios que bem o mereciam: as igrejas de Santa Maria a Grande (anexa ao convento dos Agostinhos) e do Espírito Santo, a torre do Atalaião, o Palácio Amarelo, etc..

Enquanto sinto este verdadeiro entusiasmo, não deixo no entanto de tropeçar nas circunstâncias e nas consequências da sua construção. Há casos exemplares, no bom sentido do adjectivo. Ao saber, contudo, que nos edifícios a arquitectura (a “paisagem”) não se pode separar do seu uso (o “povoamento”), há factos que roem no pensamento como areias numa sandália, chegando a ferir a alegria da assistirmos à edificação. Posso citar alguns casos:

Não é por se instalar num edifício exemplar (e possuir um fundo bibliográfico riquíssimo) que a Biblioteca Municipal de Portalegre deixa de realizar eventos que envergonhariam qualquer pequena aldeia e maculam o bom nome de uma cidade que parece ainda prezar esse título.

Não é por ter sido recuperada com grande rigor que a igreja de Santa Clara deixa de estar oculta pelas encenações de uma companhia de teatro, por obra e graça de uma gestão municipal pouco cuidadosa, que não pensou nas consequências para o usufruto do monumento da instalação naquele espaço de uma actividade incompatível com a total dignidade do património construído (quando haveria outros espaços melhor adaptados para o efeito).

A igreja dos Jesuítas é agora um dos melhor auditórios de Portalegre – o que não impede que, por vezes, lá se realizem acontecimentos pouco adaptados à dignidade do espaço.

Há na cidade do norte alentejano um castelo bem recuperado, mas serve pouco para recordar a história do monumento e da urbe em que foi construído e demasiado para actividades comerciais. Não havendo incompatibilidade, o equilíbrio deveria ser outro.

São quatro exemplos que, ao correr do teclado, me ocorreram. Outros poderiam surgir. Estes servem para ilustrar uma realidade que, infelizmente, corrói boa parte do boa imagem da cidade. Esperemos que o futuro traga práticas mais conscientes a espaços marcantes, como a igreja dos franciscanos e a Fábrica Robinson. Sabemos bem o quanto pesam na gestão dos espaços públicos de uma cidade as pressões exercidas por clientelas que, geralmente, se preocupam mais com os seus objectivos particulares ou pessoais (quantas vezes poucos éticos) do que com o enriquecimento cultural de uma comunidade e com a dignidade dos edifícios históricos e/ou monumentais. Portalegre também tem bons exemplos cívicos. Só podemos desejar uma influência positiva destes sobre quanto não atingiu ainda os patamares desejáveis  da exigência e de uma verdadeira elevação cultural e ética.

In:
O DISTRITO DE PORTALEGRE
E em: www.nortealentejano.blogspot.com

RUY VENTURA (Portalegre, 1973) é professor na península da Arrábida, a trinta quilómetros de Lisboa. Publicou, em poesia, Arquitectura do Silêncio (Lisboa, 2000; Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores), sete capítulos do mundo (Lisboa, 2003), Assim se deixa uma casa (Coimbra, 2003), Um pouco mais sobre a cidade (Villanueva de la Serena, 2004) e O lugar, a imagem  (Badajoz, 2006); em 2009 editará o original Chave de ignição, com edição simultânea em Portugal (edições Cosmorama) e em Espanha (Littera Libros). Organizou as antologias Poetas e Escritores da Serra de São Mamede (Vila Nova de Famalicão, 2002), Contos e Lendas da Serra de São Mamede (Almada, 2005), Em memória de J. O. Travanca-Rêgo e Orlando Neves (na revista Callipole, nº 13, Vila Viçosa, 2005) e o livro José do Carmo Francisco, uma aproximação (Almada, 2005). Traduziu a antologia 20 Poetas Espanhóis do Século XX (Coimbra, 2003) e os livros de poemas Dias, Fumo, de Antonio Sáez Delgado (Coimbra, 2003), Jola, de Ángel Campos Pámpano (Badajoz, 2003) e A Árvore-das-Borboletas, de Anton van Wilderode (Badajoz, 2003). É colaborador de várias revistas nacionais e estrangeiras, nomeadamente espanholas, brasileiras e americanas. Poemas e/ou livros seus estão traduzidos em castelhano, francês, inglês e alemão. Como ensaísta, tem escrito sobre Poesia Contemporânea, Literatura Tradicional e/ou Oral e Toponímia.
Coordena o blogue Estrada do Alicerce (www.alicerces1.blogspot.com).

 
 

 




 



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