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ANTÓNIO RAMOS ROSA

Que cor ó telhados de miséria 

 
Que cor ó telhados de miséria 
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos 
de nenhum querer 
a que horas nasceram as estrelas que 
um dia foram
a que horas nasci?
 

Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti
 

Não sei que idade tenho
 

Quando havia antes um antigamente 
havia uma esperança 
agora no próprio coração da ilusão 
onde a água limpa as pedras das ruínas 
entre destroços límpidos 
deito-me sobre a minha sombra e durmo 
e durmo
 

Quando havia antes um amanhecer 
à beira do abismo 
agora no próprio coração do coração 
durmo estrangulando um monstro inerme 
um palhaço de palha seca e pálido 
quando havia antes um caminho
 

Não houve nunca amigos nem, pureza
Nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
 

A manhã que eu procuro não foi sonhada 
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho 
Os pássaros insultam-me na cama 
Só com doidos com doidos amaria 
perfeitamente presente na frescura 
do mar
 

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço 
a líquida frescura duma jarra 
um passo leve e certo em cada sombra 
um ninho em cada ouvido 
de doces abelhas cegas
 

Uma casa uma caixa de música e sossego 
Um violão adormecido na doçura 
Um mar longínquo à volta atrás do campo 
Uma inundação de verdura e espessa paz 
Uma repetida e vasta constelação de grilos 
e os galos álacres do silêncio
 

Um mar de espuma e alegria obscura 
um mar de espuma e alegria clara 
entre o verde e a brisa
 

Na brancura dos quartos 
a inocência poderá sonhar desnuda 
os insetos poderão entrar 
juntamente com as plantas e as aves 
Uma longa asa passará
O mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco 
faiscará entre o ver e as lâminas solares

 
 

 

 

 


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