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José Augusto Mourão (UNL-DCC)
EM TORNO DE UM TEXTO TEÓRICO DE
A. RAMOS ROSA

4. O estalar do sentido (ou a revolução do significante)

Dans cet espace autre, oû les lois logiques de la parole sont ébranlées, le sujet se dissout et à la place du signe, c´est le heurt de significants s´annulant l´un contre l´autre qui s´ instaure. Une opération de négativité généralisée, qui n´a rien à voir avec la négativité qui constitue le jugement (Aufhbung) ni avec la négativité qui annihile (boudhisme: sunyavada). Un sujet zérologique, un non-sujet qui vient assumer cette pensée qui s´annule. Julia Kristeva

 

Na luta entre o real e o sentido, o silêncio e o grito, Ramos Rosa como Roland Barthes, enquanto escritor, coloca-se fora do campo da verdade, fazendo do significante não só o seu único lugar, como a sua única realidade. Suspensão do sentido e separação das coisas. Exílio. Avancemos algumas teses que delimitam este ensaio:

I Tese - Não é o real que constitui a referência da literatura que não é a expressão dele.

II Tese - O sentido do poema não está fora dele (no mundo) mas nele enquanto trabalho do significante.

III Tese - O acto de criação equivale à instauração da polivalência, logo da indeterminação da possibilidade.

IV Tese - O trabalho de produção do texto coincide com o trabalho de produção do sentido (do mundo).

V Tese - "A aparição" do sentido é o fruto da sua vertigem.

É desta forma que podemos resumir o essencial do trabalho teórico de Ramos Rosa sobre o fenómeno literário.

O fazer, a prática poética, é um fenómeno de des-ocultação, de libertação de uma força que faz falar. Actualização do sentido em potência ou construção do texto, no sentido em que nenhuma referência à realidade é dada. A poesia enquanto "poiesis", é um fazer, ao mesmo tempo que uma técnica, no sentido grego da palavra, que Heidegger ajudou a restotuir (o saber que se exprime no acto de criar). Essencialmente, a escrita "objectiva", "literal" visa - como o "Dasein" heideggeriano em relação ao homem - restituir aos objectos a sua condição de estar aí. A literalidade dos objectos criados procede de um "formalismo radical": a forma assume-se antes de mais como escrita, e a literatura torna-se deste modo literal.

Falando de "vertigem" (p. 48), a propósito do acto de criação, ramos Rosa assinala á escrita um lugar de nascimento enquanto forma (significante) desalienada de qualquer fundo (significado) que a salvaguardasse. Ou, como escreve Roland Barthes: escrita, ela, chega no momento em que se produz uma total sobreposição de significantes que nenhum fundo de linguagem possa mais ser detectado (1). A escrita aparece assim como a procura de uma libertação de significante (2). Jean Claude Renard, ao falar do nascimento do poema, reescreve algumas das constantes teóricas encontradas no nosso autor. ainda que sob outra forma. Para aquele autor, os caracteres do processo da criação são cinco: 1) sentimento do vazio ligado à imperiosa necessidade de expressão: um sentimento de vazio que desencadeia em mim a imperiosa necessidade de me exprimir com palavras duma natureza tal que seja capaz de preencher ou de começar a preencher esta vacância e de corresponder assim, quase, para mim, a me fazer nascer e ser, a tornar-me presente a mim próprio tornando-me ao mesmo tempo presente aquilo que eu não sou (3); 2) disponibilidade: permitindo às pulsões e às potencialidades mais profundas do corpo e do inconsciente, às energias íntimas do cosmo e às do "ça", brotar e actualizar-se espontaneamente sob a forma de matéria verbal (4); 3) ligado a um despojamento das normas ordinárias da expressão do pensamento e onde este autor predica a "mania", na acepção grega do termo; 4) traço próprio à génese do poema, o trabalho sobre a língua e finalmente 5) a natureza da pré-história da linguagem do poeta.

Literatura e real
 

O propósito da Poética é a mimese poética, a representação de acções humanas pela linguagem. Duplo "poiein": a) a construção de uma história, como arranjo sistemático (C. 8, 51 a 52) de factos encadeados segundo o necessário e o verosímil, com o subsequente efeito de purgação - depuração; b) trabalho de expressão ( lexis ), produção do texto através do ordenamento das palavras, metro, da história (49 b 35). É claro que Ramos Rosa se afasta de todo da teoria poética de Aristóteles, quer em relação à "história", quer mesmo em relação à forma de expressão. Abordarei este facto um pouco mais adiante.

O antes e o depois do agir enunciativo (o tempo espacializado da esquerda para a direita, na escrita ocidental) são já o antes e o depois do agir concreto do sujeito humano. Aqio encontramos um primeiro aspecto comum a todas as categorias de narrativa - a sua sedimentação episódica e propriamente cronológica. A teoria da ficção é-nos conhecida através da Poética, quando Aristóteles fala da tragédia. Ora a tragédia só nos dá a mimese das acções humanas quando o poema se eleva à dignidade de mito, isto é, da fábula e da intriga. Quer dizer que a mimese deixa de ser indicação servil, para passar a ser transposição, metamorfose da acção numa estrutura narrativa, ao mesmo tempo representativa do essencial (5). Numa palavra, o que a mimese imita não é a realidade dos acontecimentos, mas a sua estrutura lógica, a sua significação. E é neste sentido que, ainda segundo Ricoeur, o poema trágico é uma ficção heurística - uma espécie de modelo narrativo que "redescreve a acção humana". O poeta, ao construir a intriga, inventa um curso de acontecimentos diferente do que aconteceu na realidade. E nem por isso se pode dizer que transformar assim a realidade seja deformá-la. Porque é formá-la. As ficções fazem referência ao mundo real da acção, na medida em que redescrevem a realidade nas estruturas simbólicas da acção (6).

 
O lugar do sujeito
 

Toda a enunciação devia ser: ponto zero do sentido e seu esvaziamento. Uma cedência ao ritmo. O discurso é num texto que marca ao sujeito um lugar de enunciação. O que supõe então que o discurso é uma escrita: o discurso define o efeito de inscrição do sujeito numa posição enunciativa dentro de um discurso que é da ordem da linguagem e da socialidade. O texto é uma morada sombria. Asténico (astenes). Se a escrita acolhe as palavras, é porque há, entre a forma e o escrito e a segmentação do logos em palavras, uma afinidade: as palavras, antes de estarem escritas, residem nas "vozes" (tradução de V. Goldschmidt: en fwvais - 342C ) (7). Mais grave é que a fwnh não remete para a palavra viva e alada do Fedro, mas para para o acto de enunciar um dito: gegomevon: escrita apenas agrava o fenómeno da articulação, acusar a necrose do logos(8).

A escrita, tal como a entendeu Roland Barthes, difere de outras acepções contemporâneas., embora se apoie nelas: blanchotiana (infinito e morte do sujeito na linguagem), derridiana (malha de "traços", "diferância", "indicibilidade"), ou psicanalítica (sublimação, epifania do inconsciente), etc. Ramos Rosa segue de muito perto o paradigma da intransitividade da escrita, muito perto também de todas estas concepções contemporâneas.

No princípio está a necessidade de um "volo": eu quero. É convenção do ponto de partida. O estabelecimento de uma clausura que o discuros produz e que circunscreve a efectividade do colloquium da enunciação. É uma condição que diz respeito tanto ao destinador como ao destinatário, e que não tem que ver com a verosemelhança dos enunciados: apenas relação do leitor com a globalidade da linguagem. Aí intervém, no acto de criar, um sujeito mediador que o nosso autor oculta. Como se o produto fosse impotente para conhecer o lugar de onde o falam e de que ele é o resto. Ou talvez seja porque queira evitar a questão da inspiração. É evidente que a escrita torna o texto autónomo nem relação à intenção do autor. O que o texto significa deixa de coincidir com o que o autor quis dizer. Mais ainda, se o sujeito da escrita implica o desejo (obscuro objecto de desejo - "nesciência").

Ramos Rosa parece poder aceitar no acto da criação os esponsais da significação verbal, quer dizer textual, e da significação mental, a saber, psicológica:

o momento mem que a totalidade se manifesta na confusão originária (p. 48).

Em todo o caso, é quase nula a referência ao sujeito da escrita. Escrever parece, a este nível, aceder à palavra, ao poema, dar-lhe corpo por que o respire e fale. Por si próprio, como se o "mundo" do texto estilhaçasse o mundo do "autor" (9).

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>A literatura e o real

(1) Roland Barthes, Sade, Fourier, Loyola , Lisboa, ed. 70, 1979.

(2) José Augusto Seabra, Poiética de Barthes, Porto, Brasília, 1980, pp.1-34.

(3) Jean Claude Renard, Une autre parole , Paris, Seuil, 1981, p. 21

(4) Ibidem: p. 22.

(5) Paul Ricoeur, La structure symbolique de l´action , CISR, Estrasburgo, 1977, p. 46.

(6) Ibidem: p. 48.

(7) Antonia Soulez, "La Philosophie et la Science des Noms: pour une relecture du Cratyle", in Les Études philosophiques, nº 1, 1981, p. 60.

(8) Ibidem: p. 60.

(9) Veja-se, entre outros, A. Badiou, Théorie du sujet , Paris, Seuil, 1982; J. Kristeva, "La fonction predicative et le Sujet parlant" in Langue, discours, société , Paris, Seuil, 1975; J. A. Miller, "La suture", in Cahiers pour l´ Analyse , nº 1 1976, pp. 39-51; J. Cl. Coquet, "Prolegomènes à l´analyse modale - le Sujet énonçant" in Documents, GRSL, nº 3, Paris, 1979; M. Foucault, "What is an Author?" in Textual strategies, ed. Harari, Cornell University, 1979, pp. 141-160.

 

 

 

 


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