JOSÉ GERALDO NERES...

OUTROS SILÊNCIOS[1]
de JOSÉ GERALDO NERES[2]

...na margem de si mesmo ser o pestanejar do instante, o incêndio e a destruição e o nascimento do instante e a respiração da noite fluindo enorme na margem do tempo, dizer o que diz o rio, larga palavra semelhante a lábios, larga palavra que não acaba nunca, dizer o que diz o tempo em duras frases de pedra, em vastos acenos de mar cobrindo mundos.

Octavio Paz
DESERTO DOS PÁSSAROS ÚMIDOS[3

I

o tempo

navega

além do rio

o tempo

prisioneiro

o tempo

além da vontade da água

porta parada

homem oco e seus relógios

nome deitado cego

escondido nas raízes da água

enterra sua sombra

nos galhos de um arco-íris

parado na porta

o tempo

II

voz no cortejo de punhais

sol afogado no peso e na dor dos pássaros

seu olho

no sangue do rio

e nas suas margens com seios de prata

língua de serpente no voo da lua

e na espera d’água

III

a dança conta a vida

como se chovessem noites

o ritmo desperta a água

nos olhos navalhas

o movimento enroscado no deserto dos pássaros úmidos

deus

– em seus pesadelos

penetrava nas almas e arrancava os olhos

a poesia não cicatrizava –

acorda

na última fila

ele

diante do espelho

a linguagem da queda

IV

sentir o silêncio da nudez

palavra aquática

nos olhos

o dilúvio de arco-íris

corpos líquidos

deslizam à deriva

águas sem margens

ondas se enterram

no lírico punhal

das pequenas mortes

V

as pálpebras escavam

um círculo

agarram o mar

metade luz

metade grande selva

no horizonte

constelações de peixes rápidos

no altar de estrelas

um grito invisível

ponteiros sem lágrimas

o demônio na sombra de um deus

barcos no pulso das nascentes

dois rios inimigos

lábios em forma de promessas

VI

as árvores cantam

levam meu corpo

suas raízes criaram asas

movimento de mulher de país infinito

meus olhos no aprendizado das horas

imagino um lago

espero um navio líquido

um peixe no céu

naufrágio alado

ave trançada em algas

mostra sua pele

um rio sem margens

ensina à nuvem

ser uma manada de palavras

uma metáfora suspensa

sentado no seu colo

a noite faz morrer uma estrela

o ventre na descoberta da água

exibe-se

atravessa o silêncio

os dias cobrem os ponteiros

rasgam o vento

e o que não existe

sangra o fogo

no seu dorso

água violenta

no rio

as árvores cantam

EM NOME DA SEDE[4]

sombras se agitam

a uivar para as nuvens de martelos assustados

olhos selvagens na floresta de sobrancelhas

se agarram ao suicídio das casas

na tentativa de descobrir o segredo da terra

elas

reclamam que não conseguem sonhar direito

se encolhem de frio

querem comprar mais uma alma

mas se sentem arrastadas pelo espelho

uma paisagem de olhar amassado de sono

na sensação de serem devoradas pela areia

de serem um rio afogado

 

sussurram

somos

o castigo na espera de passar pelas sete portas

o ventre despovoado de raízes

a noite fechada dentro do homem

a estrada no limite do corpo

a segunda língua de tudo que não existe

a palavra que ninguém responde

a insônia das águas em sangue doente

o passo lento das casas e suas pálpebras pesadas

A CIDADE[5]

anúncio percorrido por sapatos apertados

a infância
tarde enroscada numa esquina

a rua
pede outra lágrima

cobra pedágio

máquina vazia de cortar segundos

além do tempo úmido

o tempo

O SOL NÃO ME ESPERA[6]

um cão ilumina a si mesmo

dentro da pele da morte

sua boca um rio de lençóis

o mistério desliza pela noite

um cego vigia a porta

a quem ele estende a mão?

como ajudá-lo a atravessar a porta?

nasce com um naufrágio atrás das orelhas

e seus olhos não possuem memória

não há claridade no caminho

apenas o cão com seus olhos de barro

EVOÉ LAROIÊ PIVA[7]

no ventre paulistano

um MASP rachado

brinca de ser menino

de apunhalar as praças

memória devorada por suas tripas

templos & centopéias

cidade & anjos engraxates

nos lábios jogos noturnos

a porta & suas locomotivas

sinto as torres & o relógio sem nuvens

& o choque do cérebro

adormeço

– o suspiro da carne –

o girassol rói os olhos da morte

como atravessar espelhos se na vitrola

sugadora de desertos

os ponteiros se dissolvem

o tempo abre a janela de Breton

o abismo se imagina poeta

UM CORTE NO TEMPO[8]

os telhados do mundo/mães

a escrita paira no ventre

minha janela de olhos de vinho

línguas línguas línguas

embriagam a cidade

lá está ela

e baixo os olhos quando vejo o

horizonte

sangue do meu sangue

respira por mim

– os olhos doem –

mergulha

se lambuza

na chuva

e eu ela

na chuva

os pelos em riste

chuva

esfrego o coração em algum dilúvio

línguas línguas línguas

pausa

o sol

de mãos postas

[inspirado no livro “visões do medo”, de beth brait alvim]

[1] Esta obra foi realizada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil - Fundação Biblioteca
Nacional - Coordenadoria Geral do Livro e da Leitura, e da Secretaria de Estado da Cultura de
São Paulo - Programa Ação Cultural - 2008 (ProAc).

[2] JOSÉ GERALDO NERES nasceu em Garça, SP, em 1966. Poeta, ficcionista, roteirista, produtor cultural, é co-fundador do grupo Palavreiros. Integrante do Grupo Gestor & Conselho Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas, e responsável pela seção Outra Margem, da revista homônima. De 2005/2008, atuou como assessor literário da Secretaria de Cultura de Diadema e, mais recentemente, curador da Sala Permanente de Vídeos da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará. É autor de Pássaros de papel (Projeto Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007) e tem textos publicados em antologias, revistas e suplementos literários no Brasil e exterior. Organizou, com Floriano Martins, a Antologia de Poetas Brasileiros (Huerga & Fierro Editores, Espanha, 2007). Recebeu diversos prêmios literários e incentivos, dentre eles: Bolsista da Fundação Biblioteca Nacional (2007/2008), Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural, Ministério da Cultura (2005), Mapa Cultural Paulista – Catálogo de Artes (2003/2004, 2005/2006, 2007/2008), Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody (2006, 3º lugar), Prêmio Cultural Plínio Marcos – Mostra de Artes de Diadema (2004), Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho (2004, 4º lugar). Participou ativamente de diversos eventos culturais, tais como: 1ª Bienal Internacional de Poesia de Brasília, Biblioteca Nacional de Brasília – DF (2008), 3ª Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – Fliporto (2007), 1º Festival Internacional de Poesía, Granada, Nicarágua (2005), 5º Encuentro Internacional Literario aBrace – Uruguay (2004), 2ª Mostra de Vídeo do Município de Mauá, com o curta-metragem “A Herança” (2003), 7º Encontro Regional de Escritores de Rio Claro (2003). O livro Outros silêncios, publicado pela Escrituras Editora, recebeu o apoio do Ministério da Cultura do Brasil – Fundação Biblioteca Nacional – Coordenadoria Geral do Livro e da Leitura, e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo – Programa de Ação Cultural – 2008 (ProAC).

[3] O livro está dividido em seis capítulos ou seções. Do 1º capítulo ou seção: DESERTO DOS PÁSSAROS ÚMIDOS.

[4] Do 2º capítulo ou seção: PESCA DE SOMBRAS.

[5] Do 3º capítulo ou seção: COLHEITA DE ESPELHOS.

[6] Do 4º capítulo ou seção: TERRAS OCULTAS.

[7] Do 5º capítulo ou seção: OUTROS SILÊNCIOS.

[8] Do 6º capítulo ou seção: O TEMPO E OS LUGARES.

INDEX

http://www.escrituras.com.br/

José Geraldo Neres (Garça, San Pablo, Brasil, 1966) Poeta, novelista, guionista. Becado de la Fundação Biblioteca Nacional de Brasil. Uno de los fundadores del grupo Palavreiros:  http://www.palavreiros.org Editor de la sección "Outra Margem" de la Revista Laboratório de poéticas (São Paulo), e integrante del Grupo Gestor del Punto de Cultura "Laboratório de Poéticas". Organizo, conjuntamente con Floriano Martins, el libro Antologia de Poetas Brasileiros (Huerga & Fierro Editores, Espanha, 2007). Es autor del libro Pássaros de papel (Projeto Dulcinéia Catadora, São Paulo, 2007). Tiene Publicaciones en antologías, revistas y suplementos literarios, en Brasil, Argentina, Colombia, España, Estados Unidos, México, y Nicarágua. Actualmente es Asesor literario da Secretaria de Cultura de Diadema, cargo que ocupa desde 2005. Contacto: jgneres@uol.com.br.

 

 




 



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