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MARIA GOMES..

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não há poesia

não sei, meus amigos, o que fazer da minha poesia

Disse num poema intitulado a metamorfose da voragem que - não há poesia - e dizendo-o, duvidei do que disse. Que dualidade! se quiserem,  que incongruência…
 
Não me quero alongar em mera retórica, pretendo somente a concisão de uma consciência poética (a minha) num tema, num tempo tão explosivo quanto este : ‘ Poesia, Poeta e Poema’.
 
Se não há poesia, onde se projecta o poeta e o poema? Em que dimensão habita o sopro? Tocará ele, como afirma T.S Eliot,  ‘a orla daqueles sentimentos que só  a música pode  expressar’
 
Essa orla, essa fronteira, puramente sensível, puramente primeira, imaterial amplia-se entre o antes e  o depois como o crisol ardente  da emoção criadora __e concomitante roda no selim da infância(1) entre a natureza e o espírito devorador do significante e do significado  de que se apropria, com a insígnia da voz.
 
E  esse ‘ser primitivo‘, que é o poeta (como  definiu Eugénio de Andrade)  integra-se numa relação íntima,  sucedâneo  de um cosmos que se  nos diz  ‘num pequeno mundo cheio de amor.’ (2)
 
Talvez a poesia ande num pequeno mundo cheio de amor!  e seja na noite, aquela  ondulação que contagia o corpo  e submerge o mar,  que o mar ainda é a matéria de migrantes missivas  __e a poesia, o invisível.
 
 Eu não vejo a poesia. Vislumbro um lugar “onde ninguém pode poisar a cabeça” (3), onde a palavra se faz coisa: átomo, grito, canto, grifo do silêncio… manifestação do mundo recriando o mundo, arremesso da pupila deslocando o azul do sol __e o sortilégio do infinito que estanca o rosáceo sangue de um austro.
 
Eu não vejo a poesia. Vislumbro os levantes, a luz das densas falésias na oferenda das mãos que recolhem a cidade real, e perguntam:

__Onde vive a poesia? 

Não sei!... Isto só ao verbo é permitido responder, ao tecido dos homens, ao que ‘apartado nele nos seja presente’ (4)
 
Eu admito, apenas, que viceja na alfaia de um ovo, na espiga de um lírio, ou na meda de um cântico ungido.
mariagomes
III Bienal de Silves, abril de 2008
1) Ruy Duarte de Carvalho in Lavra , “poesia reunida’
2) Ruy Belo,p.81 cap- ‘ particular configuração da palavra arte, Na Senda da Poesia’
3)Ruy Belo, “ Na senda da Poesia
4) Léon L. de, op cit., p.399. in cap ‘-particular configuração da palavra arte, Na Senda da Poesia’, Ruy Belo
 

Maria Gomes nasceu em Benguela, República de Angola, em 1958. Foi professora de artes visuais e trabalhou em contabilidade após a independência daquele país. Vive em Coimbra. Tem poemas publicados no Jornal de Angola, nas antologias de Poesia 1 e 2 " Escritas" sob a edição do poeta José Félix, em outras revistas de literatura na web, e na revista de Poesia de Tradução Di Versos nº 8 de Edições Sempre-em-Pé. Participou no poema " O Estado do Mundo", poema criado no ciberespaço, no âmbito de Coimbra, Capital Nacional da Cultura 2003, a editar brevemente em livro, e participou na II e III Bienal de Poesia em Silves, em Abril de 2005 e de 2008.

 




 



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