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LUÍS SERRANO..........

FERNANDO ASSIS PACHECO – 15 ANOS DEPOIS

Conferência de homenagem na IV Bienal de Poesia de Silves, Abril de 2010

A. Introdução e Nota Biográfica

      Fernando Assis Pacheco nasceu em Coimbra em 1 de Fevereiro de 1937 e veio a falecer em Lisboa, na Livraria Buchholz ao início da manhã do dia 30 de Novembro de 1995.

      Licenciou-se em Filologia Germânica pela U.C. Foi co-fundador do CITAC tendo pertencido ao TEUC, ao tempo dirigido por Paulo Quintela.

      Esteve na guerra, em Angola, (entre 1963 e 1965) e disso encontramos eco em não poucos dos seus poemas.

      Após o regresso de Angola foi para Lisboa onde até ao fim dos seus dias se dedicou ao jornalismo, colaborando regularmente com O Jornal e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias.

      O Fernando era um ano e tal mais velho do que eu. Conhecemo-nos, ainda adolescentes, nas militâncias católicas à procura de um enquadramento para as nossas vidas. A nossa procura manteve-se até ao fim. Era de uma moral que tornasse as relações entre os homens mais justas que andávamos à procura. E para ter essa moral não precisávamos da religião como ambos concluímos mais ou menos aquando da entrada na Universidade.

      As nossas preocupações passaram a ter um carácter mais cívico do que outra coisa e traduzia-se, entre outras preocupações, no desejo veemente que o antigo regime ruísse.

      Caído Salazar (por doença) e Marcelo Caetano e o seu governo por acção do 25 de Abril de 1974, a esperança de um mundo melhor e mais humano foi para ambos motivo de grande contentamento mas não foi necessário passar muito tempo para que ambos nos déssemos conta de que afinal a política e os políticos eram outra coisa: uma operação de carreirismo que podia levar uns tantos ao poder mesmo atropelando os mais lídimos interesses da população.

      Mas isso foi depois; em 1963 ainda tu acreditavas (e eu também) que o tal mundo melhor estava ali ao dobrar da esquina à nossa espera. Que ingenuidade a nossa! Como éramos ainda meninos, Fernando, e isso de ser menino nem era assim tão mau. Mas por essa altura já nós tínhamos o vício de ler livros que é uma forma disfarçada de roer as unhas da mente. E aprendemos alguma coisa mas não o suficiente. Foi por isso, por essa tua teimosia de acreditar, que só muito tarde, no ano da tua morte (1995) escreveste aqueles versos doridos:

[…] qualquer um do teu tempo

 está bastante melhor do que tu

 deputado administrador de empresa

 ministro da maioria

 puta (alguns chegaram a isso)

 

 só tu meu inocente brincas com a neta

açulas o cão pedindo

à família que te ature

o tipo um dia destes morde-te

que é para aprenderes

 

mas aqui entre amigos

vou-te dizer também

uma coisa importante não cedas

à tentação de mudar

fica nesta pele que é tua

 

como é que tu escrevias

merdalhem-se uns aos outros

[…]

(Respiração Assistida, 2003)

B. Cuidar dos Vivos

Logo pelo título pedido de empréstimo ao Marquês de Pombal quando na sequência do terramoto de 1755, ele disse a célebre frase: cuidar dos vivos, enterrar os mortos, se vê que o poeta olha em frente e acredita que no curto prazo o mundo será melhor: as ditaduras ibéricas hão-de cair, o regime de Fulgêncio Batista já caiu e os americanos hão-de sofrer uma derrota vergonhosa no Vietnam.  E esta esperança, esta “certeza” vem confirmada noutros poemas como seja o da p.20 (Os animais de fogo) em que o poeta diz: […] Eu estou à beira de nascer outra vez. / Eu tenho de legar ao meu povo / um sentido mais positivo da existência. […] …E eis por que eu não quero deixar / que a tristeza invada os meus versos. Há aqui um programa político subjacente que o leva a uma atitude racionalista de crença num mundo que há-de ser guiado pela razão. A p. 26 afirma: Mas o Maio volta. É bom saber / que num dia qualquer de um destes anos / vamos todos rir e dar as mãos, / troçar do domador se ainda houver. E houve até 1968 e depois houve outro até 1974 e mais tarde apareceram outros ainda. A sua preocupação mantinha-se. Leia-se a 1ª estrofe do poema da p.32: Eu hei-de amar serenamente / com tanto amigo na prisão, deixar intacta a minha voz / para os acidentes da ternura? Tinha clara consciência de como era difícil viver nestas contradições mas repetia para que não esqueça - Um homem tem que viver / com um pé na primavera. (p.35) e logo a seguir (p.37): A minha geração é de esperança e já na III parte (p.41) dirá Aconselho-vos o amor: / o equilíbrio dos contrários. […] ACONSELHO-VOS A LUTA.

Toda esta preocupação e este triunfalismo eram típicos dos poetas da década de 60, o que o levou à aproximação aos neo-realistas.

Em boa verdade, como já foi dito por Mário Sacramento (Há uma Estética Neo-Realista), o neo-realismo enquanto corrente estética, está muito mais representado na ficção do que na poesia. A maior parte da poesia dita neo-realista é muito mais lírica do que épica e “desculpa-se” com palavras de Éluard:

 “Não há assuntos privilegiados. Não existem assuntos proibidos. Acima de tudo, não há poesia de ordem. Tenho às vezes vontade de escrever poemas sobre os operários, os mineiros, os trabalhadores e acabo por fazer um poema sobre as folhas como também, às vezes, quero cantar o amor e acabo cantando a liberdade.

Quando escrevi o poema Liberté durante a guerra, pensava na mulher amada e repetia o seu nome. Percebi depois que o meu amor por ela coincidia com o amor pela liberdade e que o poema era um misto de cólera e de amor.

Não existe poema social no sentido comum da palavra. Existe apenas a poesia.”

Eu creio que este pequeno texto de Éluard que serviu de epígrafe a Canções para a Primavera (1960) de José Carlos de Vasconcelos poderia servir de epígrafe a outros livros de poesia aparecidos na década de 60, nomeadamente este Cuidar dos Vivos embora com a ressalva de que nesta obra aparecem já poemas que reflectem a experiência da guerra colonial, e com ela, forçoso é separar as águas: à esperança num mundo mais justo e mais humano segue-se a descrença, esse veneno […] que me envenena.    

Fernando Assis Pacheco é um grande poeta lírico, um homem que carrega o amor (pela mulher amada, pelos amigos, pela humanidade) e também a morte desde este seu primeiro livro. A título de exemplo, citemos das p.62/63 (Com a tua letra) alguns versos: Fala-se de amor para falar de muitas / coisas que entretanto nos sucedem. / Para falar do tempo, para falar do mundo / usamos o vocabulário preciso / que nos dá o amor. […] E para falar da morte; da enorme / definitiva irremediável morte, / do carro tombado na valeta /  […] Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo / da escuridão do mundo. / Porque tudo se escreve com a tua letra. /

Num outro poema F. Assis Pacheco escreve: 

Mas é preciso que um dia a gente acorde /

para coisas que não sejam fúnebres.

Para grandes e miúdos entusiasmos,

para lutar (se houver de ser) nos cornos do boi.

É preciso que um dia a gente se acenda. 

Curiosamente, escrevi ao lado desta estrofe este comentário a lápis, porventura num dia de má disposição: acreditaria nisso o Fernando?

Mas ao terminar de reler (quantas vezes o terei lido?) este livro, o que mais me perturba é um epitáfio escrito aos 23 anos (1960): Tu que te abeiras deste leito último: / sê grande no amor, grande na fraternidade. / E nunca me lamentes.

Segue-se um apêndice chamado Nambuangongo com dois poemas de 63, enviados do teatro da guerra quando o livro já estava a ser composto; o primeiro (soneto escrito no dia em que morreu o papa João XXIII, de boa memória) começa com este verso: Há um veneno em mim que me envenena, e que termina com este outro e há meu coração posto de rastos. O segundo chama-se O Poeta Cercado:

O poeta está cercado. Espera-o / um avô muito velho. […] O poeta escreve os seus papéis / furtivamente. / Come com gestos lentos e imprecisos. / Bebe em silêncio. Olha as matas em volta. / Dorme enrolado no seu cobertor / como o romeiro do Senhor da Serra, / mas pior, e menos, porque não há deus. […] Mal ele sabe que o avô Santiago morrerá ainda nesse ano de 63 (Fernando Assis Pacheco recebe a notícia no mato.)

Chegamos ao fim de Cuidar dos Vivos com a sensação de que houve uma transformação profunda em Fernando Assis Pacheco: é um homem que está sozinho ou que começa a estar sozinho, descrente de tudo, desencantado (talvez por efeito da guerra colonial que o traumatizou fortemente como julgo saber) e ainda só estamos em 63. Restar-lhe-ão 32 anos de vida e as grandes alegrias que vai ter virão da família: da Rosarinho, companheira de sempre e do nascimento das 5 filhas e do João, o único macho da família. E terá também um pai e uma mãe que o adoram.

C. Catalabanza Quilolo e Volta

 Este é, na minha opinião, um dos livros mais dramáticos que se escreveram tendo como pano de fundo a guerra colonial em Angola. Foi editado pela Centelha, Coimbra, em 1976. Lembro-me de o ter adquirido numa vaga feira do livro em Coimbra, curiosamente no velho Chiado que depois tinha sido propriedade do avô galego Santiago A. A. Mendes e que posteriormente voltaria ser o Chiado, espaço hoje utilizado como galeria de pintura. O Fernando estava lá para uma também vaga sessão de autógrafos. Fui dar-lhe o abraço de sempre e releio agora comovidamente a dedicatória, simples e despretensiosa que quis escrever na 2ª página “Ao fim de tantos anos apareço-te com isto. Já sei que entendes, mas há calão à brava para mastigar: foi o que saiu. O velho abraço do Assis 3.6.78”

Esta obra é, nas palavras do autor, basicamente a versão original de um título que publiquei em Maio de 1972, Câu Kiên: um Resumo. Este título era obviamente um disfarce, um fingimento para iludir a censura. A este original o poeta acrescentou mais alguns poemas escritos na mesma época mas agora já sem a possibilidade de os atrasados mentais da censura se poderem intrometer. 

Logo na 1ª parte (Lisboa) e no 1º poema intitulado “E havia Outono?”. O poeta diz: Havia o que não esperas: árvores, / altas árvores de coração amargo, / e o vento rodopia e leva / as folhas cegas / por sobre a cabeça do homem. / Havia um coto em sangue.

Como se vê, a seguir a uma introdução ao Outono, um Outono como há outros com a sua queda de folhas, surge-nos um Inverno que é um soco no estômago: Havia um coto em sangue.

F. Assis Pacheco vai utilizar por diversas vezes esta “técnica” de ponto / contraponto. Leia-se este poema na sua continuação: Morreremos dez vezes / para nascer dez vezes, / não morreremos nunca, / diziam // […] Havia o que não esperas: risos, / lágrimas como risos, / lágrimas / como folhas cegas / explodindo ao de leve; / e a morte –

Retiro da 2ª parte (Dembos) o poema Morro do Aragão que transcreverei na íntegra:

Encosto a cabeça a um pneu / acendo

 o cigarro / passarão anos sobre esta

lembrança entontecida.

Amanhã dormirei? /

foi agora que a morte / o

sono dentro da cabeça /

este pneu sobre a lama.

 

Luzes de Nambuangongo

ao longe, amanhã estarei

deitado no meu catre.

 

As cartas enlouquecem / casa, pai!

Foi agora que as luzes. O sono,

O pneu / o cigarro sujo.

 

Pacheco, O. K.? A mão pesada

dentro do bolso / o sono

sobre o pneu.

Noite, noite entontecida.

 

Passarão anos, nascerão filhos

muito antes que eu esqueça.

 

O. K., O. K. / rio de trevas. 

Chamo a atenção para o carácter compulsivo deste poema onde certas palavras se repetem: pneu, sono, lama, o peso dos vocábulos “casa” e “pai” na economia do poema, a palavra morte uma só vez enunciada mas implícita na palavra sono (eufemismo). Há mesmo uma frase que fica a meio: Foi agora que as luzes. Tudo isto dá uma ideia de desnorte, de desalento, de grande confusão, de um clima depressivo que lança o poeta numa indisfarçável vontade de não estar ali. Mais tarde, no livro póstumo voltará ao tema, sugerindo que outros poderiam lá estar que não ele e os companheiros compelidos a fazer uma guerra para a qual não foram nem achados nem ouvidos.

Nalguns poemas, Fernando Assis Pacheco emprega o seu conhecido sentido de humor para destruir a guerra pelo ridículo ou para reagir ao medo. Assim, no poema “Por estes Matos”, um daqueles poemas que é costume classificar como poesia em prosa (como se isso fosse importante!), nas últimas linhas escreve: Se tivesse aqui o meu pai dizia-lhe: “Isto não vale o silêncio que usais, senhor; protestai comigo diante das palmeiras; sentai-vos no banco de pau, é por estes matos que tudo foge.” A guerra perdeu a medida.

O único sítio de paz foi cavado anteontem. Entra-se por um lado, caga-se e sai-se pelo outro.

Poemas há que eu não conseguiria ler alto, tal é a dor que deles transpira: “As Balas”, por exemplo (p.39/40) e “Relato”, um sonho, um pesadelo onde entra um pai, um tio, um jeep e mais não digo (p.51 a 53)

Na 3ª parte (Luanda) alguns títulos de poemas são significativos: “Isso, a Walter”, “Ode ao Librium Dez” “A Filha” (Ajudai-me a cantar a filha. / Preciso de cantar / esta alegria simples que se abate / sobre uns ombros mesquinhos: / […] Preciso de cantar a filha. […] Luanda é a noite / despojada de estrelas. /Não merece esta filha.).

Esta obra termina com uma 4ª parte com o título igual ao da 1ª (Lisboa). Do Genérico (p.73) retiro apenas os primeiros 6 versos (e sem comentários): E tu, meu pai? Adivinho esses vidros / das lágrimas quebrando / um a um na boca triste mas / por dentro, para que digamos / mais tarde, sem invenção escusada: / o pai não chorou.

D. Memórias do Contencioso

 Trata-se de uma edição Heptágono, Lisboa, 1976, graficamente muito modesta como se tivesse sido escrita na velha máquina de escrever (tecnologia que o Fernando nunca abandonou). Seria uma homenagem a alguma velha Remington? Era homem para isso!

São poemas de amor. Se alguma dúvida subsistisse bastaria ler a epígrafe retirada do 1º verso do soneto LXXXII do Canzoniere de Petrarca: Io non fu’ d’amar voi lassato unquancho que na minha modesta tradução dá qualquer coisa como isto: Nunca fiquei cansado de vos amar.

Este pequeno opúsculo de apenas 8 páginas encerra poemas escritos entre 1963 e 1976 e dele não resisto a ler-lhes os poemas 8 e 9.

Poema 8: 

mas segundo o discurso “em voga”

maldita seja a sorte que na morte

da forte vida sobre as patas

me tenha em locus solus

 

e derramem-se-me os óleos

do coração e a

vista se me feche e cuspam

de longe neste gafo

 

se for para calar-me e não disser

o teu nome no fim, sempre o teu nome

 

Poema 9

 

não pude amar mais nada

não pude mais ninguém

e mesmo que te minta

é o contrário disso

 

e mesmo que te minta

é a verdade seca

posta ali às avessas;

não pude amar mais claro

 Chamo apenas a atenção para a rima interna e aliterações (sobretudo no 1º). Não há aqui lugar para efeitos especiais, variações, rodriguinhos, coisas assim. É uma poesia enxuta ainda mesmo quando confessa o grande amor da sua vida.

E. Siquer Este Refúgio

 Obra editada também por Heptágono (Lisboa, 1976, 8 páginas). Aborda alguns lugares com os quais o poeta teve uma relação privilegiada: “Olivais, Coimbra”, “Inverness, Escócia”, Bouzas de Fondo, Orense”, “Quarto Bairro, Paris”, “Chiado e Lumiar, Lisboa”, “Peniche”.

A epígrafe que abre este caderno é da Canção X de Camões: Siquer este refúgio só terei: / falar e errar, sem culpa, livremente.

O poema Bouzas de Fondo, Orense: a Muiñeira é um curioso poema onde se misturam frases entrecortadas e retiradas de outros contextos com palavras portuguesas e galegas numa amálgama que diz bem do sentido cultural e familiar que o poeta tinha com a Galiza.

Um outro poema que revela um poeta experimentalista é Chiado, Lisboa: Escritor à Barra. São frases cheias de ironia imaginadas ao balcão de um bar do Chiado, não têm princípio nem fim mas o gozo do poeta vê-se em expressões como estas:

“…que tu paraste: parei?: a dita revolução na via uriginária portuguesa: o uriginol!”

“…que mau grado os apetites por uma literatura ao serviço do puâbo”

“…que somos um funeral”

Creio que estas três frases chegam para mostrar uma ironia que vira sarcasmo e denota um homem triste num país triste a beber um copo ao balcão ouvindo as tristuras dos outros compinchas de ocasião.

F. Variações em Sousa

Editada em 2004 por Angelus Novus e Edições Cotovia, esta obra apresenta-se  dividida em três partes e é de algum modo uma revisitação de Coimbra pela mão do poeta António de Sousa como sugere Gustavo Rubim, autor do posfácio. Os poemas foram escritos, certamente antes de 1984, pois existe uma 1ª edição de Hiena Editora (1987) mas já tinha havido uma edição anterior (1984) não comercial.

A 2ª parte traz à nossa leitura quatro poemas com o mesmo título Chula das Fogueiras. São referências a vagas namoradas ou nem isso, que o autor despachou ou por elas foi despachado (tu querias era casar na Sé Nova / […] fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo […], etc.

A minha atracção, porque de atracção se trata, vai para “Canção do Ano 86” (é um encontro consigo próprio, Coimbra ao fundo e esse sentimento que o não abandonará mais, de perdedor) a que não é estranho um indisfarçável pudor: 

Agora quando volto

quando é raro voltar e sempre por um dia

estou à minha espera na ponte de Santa Clara

com um ramo de rosas que levanto

à aproximação do carro

saudando-te caro Fernando Assis Pacheco

filho pródigo destes quintais floridos

 

quando acontece que volto

que assim volto por pouquíssimo tempo dou comigo

na berma da EN 1 a olhar à esquerda o Vale do Inferno

hoje estragado por um sacana qualquer dum engenheiro

dizendo adeus adeus Fernando Assis Pacheco

menino antigamente sem cuidado

 

se é que volto intimado pela agenda

do jornal em Condeixa já inquieto espreito

a ver se vens dos lados de Pombal

oitavo duma fila atrás dum camião

coçando a barba gesto bem teu

com que disfarças o nervoso e a pressa

 

volto sem querer quando decerto

mais não queria voltar

encasacado anónimo de olho circunvago

Leiria num relance prego no fundo

apetecia parar ao pé de ti Fernando Assis Pacheco

 

cálido aceno do que morreu

conversamos os dois sobre esse século esses

cafés com quatro mesas e matraquilhos na cave a cheirar a bolor

essas aulas a que faltávamos no último período para empatar

cinco a cinco com os varões todos torcidos

           

            consta que desde então

não fazes mais do que  perder 

Há neste poema um jogo de espelhos, um flash-back (não lhe chamo analepse porque há neste poema muito de linguagem cinematográfica: plano geral sobre Coimbra vista do Vale do Inferno, vários grandes planos sobre o Fernando aos 20 e aos 50 anos, um travelling  a grande velocidade nas imediações de Leiria, etc), um flash-back dizia numa tentativa desesperada de se encontrar a si próprio e perceber a sua pessoa e o mundo em que vive. Mas o Fernando era já um perdedor, disfarçando com a laracha, com esse espantoso sentido de humor que era o seu e que é apanágio das pessoas inteligentes mas tristes, era um homem com o país colado à pele, aquilo que Alexandre O’Neill traduziu pelos conhecidos versos Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, / […] meu remorso, / meu remorso de todos nós...

Do Soneto aos filhos (p.42), curiosamente um “soneto” com 15 versos, retiro o último verso, o 15º: mas livrai-vos do luxo e da soberba. Que melhor testamento moral se podia deixar aos herdeiros? Ele dá bem a medida das preocupações de ordem moral que foram sempre as suas ao longo da sua vida, primeiro com Deus e depois sem Deus. Que diferença faz?

Um outro poema deste Variações em Sousa e que é uma reflexão sobre a morte, que digo eu? Uma premonição da morte em forma de fábula:

 

Ora uma vez um mocho diz o meu filho

que sabe todas as histórias do mundo

 

uma vez um mocho

o macaquinho pergunta-lhe

o que é quando se morre?

pois nada diz o mocho

morre-se praí

 

o macaquinho insiste

mocho e quando tu morreres?

morro nada diz o mocho

hás-de morrer tu primeiro

 

mas veio uma zorra e comeu o mocho

que foi para um buraco muito fundo

ninguém cantava nesse buraco

só os morcegos e mesmo esses

só se a gente lhes batesse

com uma vassoura da cozinha

 

o macaquinho come bananas

escapa-se ao jacaré do Amazonas

que lhe quer dar uma dentada

salta nas árvores

uma daquelas era onde estava o mocho

 

coitado do mocho

não viu a zorra ao pé da carvalheira

morre-se praí

morre-se num instantemente de nada

 

morre-se a morte mocha

sem a gente dizer ai

G. Respiração Assistida

Trata-se de obra póstuma, editada em 2003 pela Assírio & Alvim, com posfácio de Manuel Gusmão tendo a organização da edição sido da responsabilidade de Abel Barros Baptista. Reúne 35 poemas escritos entre 1991 e 1995, 26 dos quais nos dois últimos anos de vida; alguns deles foram revistos poucos dias antes da sua morte, nomeadamente o que dá o título à obra, datado de 27.11.95.

É um dos livros mais tristes e mais dramáticos que alguma vez li. Que não se iludam os que lerem os sonetos 1, 2, 7, 8 e 9. Estes cinco sonetos (eróticos ou como pretende Manuel Gusmão, licenciosos e a meu ver bem) são ainda a expressão de uma ligação à vida, de um forte amor à vida, pela mão de Diónisos. É como se por essa via, ele nos quisesse dizer que, apesar de tudo, a vida vale a pena ser vivida.

Quanto aos restantes, alguns referem os seus graves problemas de saúde, alguns são ainda reminiscências da guerra, poemas dedicados à memória de amigos que, entretanto, morreram (D. Manuela Alegre, Afonso Praça, Bento Soares) e outros.

Entre esses outros, um dos que mais me enternece é este: 

O que vai ser avô saúda-vos

parentes meus

mudos sob a terra guardados

em roupas que sobraram nas gavetas

papeleiras inúteis

pratas deformadas

 

velhas fotos severas

numa delas meu pai menino

de pé no seu bibe escolar

e a cara tão séria

que jamais perdeu

mesmo quando sorria

 

minha mãe moça magra

o que se dizia bem posta

vinda nesse ano

de Melias em Ourense

aturdida com a festa

que as minhas filhas

foram conhecer comigo

e como ela bonitinhas

 

mas depois chega a morte

adeus Cazurro barqueiro

adeus sr. Santiago A. A. Mendes

-nome comercial- adeus tios Eládios

logo dois um deles meu tio-avô

com a sua lojinha em Ourense

aonde eu ia comprar pipas de girassol

o outro dizem os filhos meu muito amigo

mas com quem me desavim

por qualquer motivo estúpido

desses que ninguém explica

 

parentes vizinhos olhos

que já não vêem nem eu vejo

a minha rua e depois outra

para onde mudei tão infeliz

onde afinal fui feliz muitíssimo   

 

ei-la aqui a neta um vulto ainda

na barriga da mãe

também feita do que eu sou

e se quiserdes ó memórias

o que no mundo

sobra de vós todas

Vilagarcía de Arousa, 10.IX.95

Lisboa 10.X.95

O poeta conheceu apenas a primeira neta, Margarida, nascida em Dezembro de 1994, o que significa que as datas acima referem apenas o termo do poema, certamente iniciado muito mais cedo.

Mas o livro, repito, é quase tão triste quanto o de António Nobre. Não tinha muitas razões para estar contente ou esperançoso. A saúde ia de mal a pior e o país afogava-se num lamaçal de que ainda não saiu e já lá vão 15 anos. Basta reler o poema da p. 36:

            Este ministro é um mentiroso

que agonia quando ele discursa

e se fosse só isso: bale sem jeito

às meias horas seguidas – e não pára!

 

bem-aventurados os duros de ouvido

a quem o céu abrirá as portas

desliguem p. f. o microfone

ou então tirem o país da ficha 

      Este livro, Respiração Assistida, livro póstumo, como já se disse, dá-nos bem a medida do seu talento mas dá-nos também a medida do seu desencanto, as contínuas alusões à morte que ele sabia estava próxima. Mas a grande maioria, para além de ser um conjunto muito belo, é tremendamente melancólico.

      O poema que dá o título ao livro corrigiu-o Fernando Assis Pacheco três dias antes de morrer (Eu vi a morte / de noite – névoa branca - / entre os frascos do soro / rondar a minha cama (...).

      Outros são poemas de inexcedível ternura como aquele cujo tema é o seu próprio pai:

      O dia em que nasci meu pai cantava / versos que inventam os pastores do monte / com palavras de lã fiada fina / cordeiro lírio neve tojo fonte // esta é uma velha história de família / para dizer como ele e eu chegámos / à raiz mais profunda do afecto / da qual nunca jamais nos separámos // nem Deus feito menino teve um pai / que o abraçasse e lhe cantasse assim / a primeira hora até ao fim // fui vê-lo ao hospital quando morria / olhos parados num sorriso leve / tojo cordeiro lírio fonte neve.

H. Conclusão

      Foram muitos os escritores e não só, que quiseram dar testemunho da admiração que por ti tinham: por exemplo, Joaquim Manuel Magalhães e José Cardoso Pires (um texto belíssimo e emocionado; só não estou de acordo com ele quando diz que tu eras um homem feliz, bem o enganaste; basta ler o poema da p. 45 “Um tal Fernando Assis Pacheco” onde se pode ler […] adorava os pais mas tinha medo / quando zangados se punham aos gritos / […] chorava então desabaladamente / […] mesmo depois a noite que urinasse / no pijama era um protesto civil / encharcou assim grande parte das Beiras / não lhe perguntem se foi feliz); o poema tem data de 25.V.95. Continuo a citar os escritores que quiseram dar testemunho de ti: José Bento, Jorge Amado, Zélia Gattai, António Tabucchi, Brigitte Paulino-Neto, João Miguel Fernandes Jorge, Luís Sepúlveda, Antón Mascato, Paco Feixo, Fernando J. B. Martinho, Eugénio Lisboa, João Francisco Vilhena, Xesús González Gómez, Mário Quartin Graça, José Eduardo Rebelo e José Carlos de Vasconcelos (responsável pela coordenação dos dois números do JL dedicados ao poeta).

      A este número há que acrescentar poemas dedicados à sua memória da autoria de Manuel Alegre, Rui Knopfli, Luís Filipe Castro Mendes, Manuel Alberto Valente e José Manuel Mendes.

      Meu caro Fernando, há quantos anos deixámos de nos ver? A última vez que estivemos na mesma sala foi numa homenagem ao Prof. Paulo Quintela e não chegámos a conversar. Nem sequer te cheguei a ver. Foi a mulher que me veio dizer: olha, estive a conversar com um grupo de pessoas entre as quais se encontrava o Fernando Assis Pacheco que te manda um grande abraço. São partidas que a vida nos prega, Fernando: éramos amigos e tão poucas vezes nos encontrámos depois que foste para Lisboa e eu, primeiro, para o Porto e a seguir para Aveiro. E eu não arranjei tempo para te retribuir o abraço e só eu sei quanto apreciei sempre a tua poesia, quanto apreciei sempre a tua generosidade, a tua disponibilidade para os outros.

      Olha Fernando, partiste vai para quinze anos e o mundo não está melhor. Pelo contrário, são os medíocres que triunfam, os oportunistas, aqueles que são capazes de vender o pai e a mãe por um lugar ao sol. Por isso, deixa-me fazer minhas, repetindo-as, aquelas tuas palavras do poema das p. 43-44: (...) qualquer um do teu tempo / está bastante melhor do que tu /deputado administrador de empresa / ministro da maioria / puta (alguns chegaram a isso) // só tu meu inocente brincas com a neta / açulas o cão pedindo / à família que te ature / o tipo um dia destes morde-te / que é para aprenderes // mas aqui entre amigos / vou-te dizer também / uma coisa importante não cedas / à tentação de mudar / fica nesta pele que é tua // como é que tu escrevias / merdalhem-se uns aos outros // o país mete dó // guarda o último tesão / para mandares / meia dúzia de canalhas à tabua.

      Da tua vida fica-me uma saudade imensa e este conselho (tu que não gostavas de dar conselhos a ninguém): não cedas à tentação de mudar fica nesta pele que é tua. Obrigado, Fernando. 

Luís Serrano, Aveiro,  Março, 2010

Simão, neto de Fernando Assis Pacheco, Luís Serrano e Maria Gabriela Martins Gouveia, na sessão de homenagem a Fernando Assis Pacheco, na IV Bienal de Poesia de Silves, Abril de 2010

Luís Serrano nasceu em Évora em 1938. Licenciado em Ciências Geológicas (UC), foi investigador da Universidade de Aveiro de 1975 a 2001. Foi um dos fundadores da Revista de Poesia Êxodo (1961). Tem colaboração dispersa em diversas páginas literárias e nas revistas Vértice e Letras e Letras. Está também representado em várias antologias. Publicou Poemas do Tempo Incerto (Vértice, 1983), Entre Sono e Abandono (Estante Editora, 1990), As Casas Pressentidas (edição de autor, 1999 uma das obras premiadas com o Prémio Nacional Guerra Junqueiro) e Nas Colinas do Esquecimento (Campo das Letras, 2004) .
 

 


 

 



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