JORGE VICENTE.............

Três poemas

1

talvez escrever
seja ascender um pouco mais na minha
condição de humano
 
digo ascender
porque não posso dizer entregar
o corpo ainda não me permite
 
ainda se sustém
no ritmo das sílabas
na junção de cada uma das palavras,
no encadeamento subtil
de cada respiração
que leva a outra e a outra e a todos os
caules das árvores abertas
ou por abrir
 
talvez ascender
demore a conjugação do corpo
com o sexo aberto das árvores
 
e não permita a vivência
e o sentir desmesurado de
ser-se
presente na nascência das folhas.

2

estou presente em todos os lugares
na voz minha
na voz de todos
no texto que o corpo singrante desfaz
 
estou presente nesse corpo

que aumenta
reduz,
abre-se de forma contínua
e viva
entre os espaços
 
[frechas lembrando
artérias de anjos ou matéria libidinal

sem forma]
 
durmo
recebo
olho os olhos de quem me ama
sorrio e sinto-me uno na roda
entro em sintonia com o prazer
do lobo,
desfaço os nós da árvore
mesmo
que o prazer das folhas
seja cair e cair
e misturar-se no primordial
 
ouço o que a voz tem para me oferecer
alimento
desejo-me
tenho medo dessa voz
ou desse corpo
 
porque, no final do dia,
sei que escrever é um passo para a morte
uma morte alimentando
o rio que me ressuscita.

3

todo o corpo é aberto ao sentido,

à vértebra saliente,

ao espaço de religação entre

o que é nosso e o que

vive no indiferenciado

 

todo o corpo

tem um sentido ausente-

de-si-mesmo,

um momento na criação,

um nome subtraído na

génese de todos os sexos

 

todo o corpo vive e é separado,

sustém a respiração,

se alimenta do caule da flor

mesmo quando ela expande

o seu ritmo arenoso de palavras.

 

 
 

 

 

 




 



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