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JORGE DE SENA...
Noutros Lugares

Não é que ser possível ser feliz acabe,

quando se aprende a sê-lo com bem pouco.

Ou que não mais saibamos repetir o gesto

que mais prazer nos dá, ou que daria

a outrem um prazer irresistível. Não:

o tempo nos afina e nos apura:

faríamos o gesto com infinda ciência.

Não é que passem as pessoas, quando

o nosso pouco é feito da passagem delas.

Nem é também que ao jovem seja dado

o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes

de serem destruídos, as pessoas somem,

e não mais voltam onde parecia

que elas ou outras voltariam sempre

por toda a eternidade. Mas não voltam,

desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias

mudam. Desertas ficam praias que brilhavam

não de água ou sol mas solta juventude.

As ruas rasgam casas onde leitos

já frios e lavados não rangiam mais.

E portas encostadas só se abrem sobre

a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,

em que com tempo o gesto sempre o mesmo

faríamos com ciência refinada e sábia

(o mesmo gesto que seria útil,

se o modo e a circunstância persistissem),

tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,

exactamente como dantes. Mas

aonde e como? Aonde e como? Quando?

Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,

a que horas do dia ou da noite, não sei.

Apenas sei que as circunstâncias mudam

e que os lugares acabam. E que a gente

não volta ou não repete, e sem razão, o que

só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,

feita de raiva e do vazio gélido,

não é saudade, não. Mas muito apenas

o horror de não saber como se sabe agora

o mesmo que aprendi. E a solidão

de tudo ser igual doutra maneira.

E o medo de que a vida seja isto:

um hábito quebrado que se não reata,

senão noutros lugares que não conheço.

 
   
   

 

 

 


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