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JOÃO RASTEIRO

SOB AS ÁRVORES

É urgente o amor
Ao António Ramos Rosa

O amor ferve de uma ferida exangue

de foles de corpos frescos

de caminhos e sonhos dilatados

de vertigem de ser só sede

de espaços que se tornam pele

de palavras de gume branco,

o rumor azul.

 

Há amor carregado de sol e águas cegas

e há amores como lágrimas fulgurantes

como um eco de um princípio inacessível.

 

O amor vem de corações fragmentários

de um sabor para além de tudo

de uma disseminação de vozes

de bocas e fogo unido à terra

de uma força feroz nos pulmões

de torres de sílex negro,

animais insólitos.

 

Há amor aberto de imensas pedras cruas

e há amores entre a parede e o silêncio

como linhas paralelas de pequenos círculos.

 

O amor forma cúpulas diáfanas

de livros ilegíveis na sombra

de arcos sob gargantas ocultas

de um corpo côncavo em luz

de um tempo concreto no respirar

de profunda ausência nas raízes,

a chama da terra.

 

O amor dilata-se e dilata-nos de veias

invoca e insufla a pele de sal aceso na água,

é serpente que morde a própria cauda diurna

dilacera palavras nuas por outras palavras desnudadas,

mas não se pode adiar mais o amor indivisível

que rasga o mundo feérico na dobra do corpo.

 

Não se pode adiar mais o amor inicial

que acende o tempo no lume sagrado das pirâmides,

essa nudez de memória álgida que nos aflora a boca.

 
 

 



 



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