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JOÃO RASTEIRO

A MARGINALIZAÇÃO DA POESIA
A sobrevivência da linguagem na subversão dos extremos

Alienada entre vida e linguagem, a poesia estabelece a possibilidade de uma experiência que visa a criação de um espaço e/ou mundo transparente, mas como refere Michael Palmer, tem a responsabilidade de obrigatoriamente considerar o leitor (mesmo que só um) como participante activo na construção ou desconstrução do significado.

Quando se pensa para um mundo (não para o "mundo"), como refere ainda Michael Palmer, dever-se-á questionar as estruturas consideradas de significado e/ou representação, de forma que o irrepresentado possa e deva ser trazido ao jogo do claro e do escuro, ao “mar amargo de invisibilidades”. No entanto e talvez daí, é hoje em dia que se nos depara com mais intensidade, que a poesia tanto é o espaço onde se verifica o desaire como a libertação.

O problema fundamental da poesia e da escrita de forma geral, é que a linguagem ainda (provavelmente nunca o conseguirá), não consegue acompanhar a complexidade do real e como a linguagem “mostra” o real, de que real estamos a falar? O que é a sociedade e a sua cultura? Que e quais são as culturas? Que identidades podem ser absorvidas pela linguagem e poesia? A poesia tal como o homem e/ou linguagem deve tentar impor uma ordem sobre o caos ou deve abrir-se ao radicalmente outro, num permanente esforço de extática exteriorização? Porque como afirmava William Bronk: “é sempre um mundo e não o mundo”. Assim a poesia só deverá ou deveria surgir de afrontas, desvios, rupturas, num processo de marginalização, mas simultaneamente num discurso para o exterior e para o interior de si mesmo.

A marginalização poética, como marginalização do absoluto, o questionar permanente do poder da linguagem e/ou o poder da justiça poética. Quando Bob Perelmen, questiona alguns princípios e/ou ideias pré-concebidas e estabelecidas, seja ao nível do que é a literatura, poesia, linguagem, cânone, centro, margens, etc, num absoluto contexto de relatividade, implica no entanto uma clara propensão para se optar, para quais as margens (embora sempre artificiais, em função do contexto) estamos dispostos a soltar, a ir e/ou negociar.

Se a função da poesia e/ou do poeta é ou deveria ser, produzir sistematicamente possibilitando que a poesia e/ou linguagem possa ser encarada como o polo central, o valor máximo para o qual convergem no sentido da máxima expansão das suas infinitas possibilidades, desconstruindo, descentralizando, num desejo permanente do irreal, já que o importante é sempre o que não existe, num processo que é processo, desconstruindo ou seja construindo o irracional, num apelo à criação e ao acto, será linear a convicção, de que a poesia e/ou poeta terá hipótese de não entrara no “jogo” nessa estratégia de quem define o centro e as margens, ou nessa teia que as próprias margens tecem, já que quase sempre, são elas que determinam o centro.

Como explicar ou a quem atribuir a culpa, quando dependendo do contexto, as margens se tornam centros?

Como conceber a poesia num processo de superação e marginalização, quando o centro ou a margem, é sempre um “outro lugar” ou um “nenhum lugar” que é também sempre “agora-aqui”, numa dialéctica contextual? Será legítimo ou justiça poética afirmar que a poesia é a margem dentro de outra margem (ou será centro)e é melhor ou pior na caracterização do labirinto que é a representação de um real pela linguagem. No entanto, tal como Bob Perelmen tem a noção, o simples facto de se ironizar (de ele ironizar) com o centro (poesia como sinónimo de repetição e/ou representação do passado) não é uma forma em si mesmo de poder e/ou centro, mesmo que assente em variação, num impulso sideral de marginalização?

A poesia tem a responsabilidade de a linguagem transcender as palavras, de corromper os conceitos, daí por vezes assustar, ao ponto de a maior parte dos ensaios, recensões ou livros a respeito de poesia “serem espantosamente acríticos, quase só explicativos, com críticos louvando ou atacando os autores, sem diálogo real ou debate", como refere e defende Marjorie Perloff. Mas se a poesia no seu interior, também é centro e margem e como já referi o centro não é uno, mas móbil, isso depende de múltiplas variáveis, inclusive da forma da palavra, texto e livro, num processo activo, tentando subverter pela invenção, numa dupla emblemática: palavra-imagem, em permanente desconstrução construção. Como escreve Mike Basinski

“As gOtas cadentes da sede prOvOcatÓria cascateiam para fOra da página em pOntas de pés sOltandO-se desta fria flOresta de sentidO desprOvida”.

Nesta globalização material, em que dialogam as indústrias do livro e as indústrias culturais, as indústrias académicas e onde até os Prémios Nóbeis se “centram” na dialéctica literatura e ideologia ou ainda quase obrigatoriamente no facto da obra ter sido traduzida em inglês, é urgente (embora “eu” seja a ponta da margem, afirmo altivamente como “centro”) aumentar as co-edições e as trocas formais e se possível escrever mais em Mirandês.

É necessário impedir que o texto se submeta às regras, logo que seja definido pelas suas próprias margens com e através da poesia, é urgente “sermos nós próprios, estarmos permanentemente a devorar-nos”, sabendo que através do poema e tal como este, só há o momento, não há prolongamento e/ou eternidade, porque não somos mais do que isto, como imagens breves. O mais irónico, quer seja na poesia ou literatura em geral, é o facto de as próprias margens por vezes se tornarem (ou serem arrastadas) centros, quase por si só, sem intervenção directa do cânone, mas sim pelos “discípulos” dessas margens, (com tudo o que de negativo os discípulos e/ou imitadores podem configurar à poesia) tornando-a banal e indiscriminada.

A poesia terá forçosamente que representar as múltiplas vozes que buscam um debate aberto, que transcenda a mera reiteração de ecos e contribua de forma efectiva e lúcida, para a "negociação" e a partilha de significações, mas numa dialéctica de xeque ao significado, já que o próprio poeta faz parte de uma sociedade que institui, como valores a perseguir, o êxito, o lucro, o triunfo sobre o outro. É nesta sociedade "democrática" que as pessoas são colocadas, perante uma situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons e legítimos para se alcançar, aquilo que se ambiciona (até para não se ser esmagado). E é isto que a poesia terá que tentar combater, mesmo que para isso utilize as palavras num processo de "guerrilha". Como refere o poeta brasileiro Régis Bonvicino, no poema "Voz":

Uma voz

que se

levante

contra

que se levante

buraco

no azul

pálido contra

magnólia oca

muda

só -

entre chamas.

Hoje, num mundo e num contexto social em que ninguém parece interessado em ouvir o “mundo”, na arte em geral e na poesia em especial, será necessário e urgente (não implicando necessariamente torná-la panfletária) fazer com que a poesia não fale sobre, mas fale com, numa dialéctica transgressora, entre vida e linguagem, tentando que ela não seja consumida como um signo vazio e que resista o mais possível (seja ao cânone e os seus interesses ou até pelos eixos em que se estruturam as relações entro centro e margens) a tornar-se centro.

É certo que para a poesia e poeta marginal dos centros que ainda são margens de outros centros de forma sucessiva, o risco é grande, no fundo a velha norma, “produza e/ou publique ou pereça”, poderá ser substituída por, “produza e/ou publique e pereça”. Mas para que eventualmente este “novo corpo de trabalho” muitas vezes, eternamente marginal, não só para o exterior, como e fundamentalmente no interior da poesia, possa despertar algo "num mundo" (não no mundo) que nos sufoca numa constante legitimação de existência programada, é necessário continuar a tentar transgredir o futuro do passado. Como diz a poeta Ana Hatherly,

“Era uma vez uma pessoa que andava sempre com uma palavra debaixo da língua. Quando a tinha na ponta falava, dando pequenos estalos de prazer. Depois lambia os beiços gulosamente. Estamos aqui à espera de quê? Imagina – acção.”

Podemo-nos questionar se as sociedades futuras poderão renunciar à poesia e à sua linguagem marginal ou em que medida a revolução científica e tecnológica que vivemos, desenvolverá outras formas de “raciocinar e de sentir” e necessariamente outras estruturas mentais de que a arte em geral e principalmente a poesia deverá dar conta. Mas o problema essencial será sempre perspectivar em que medida o poeta e a poesia continuarão fieis (premiados quase sempre com derrotas morais) a valores contestados com tanta frequência e em que medida se preocuparão eles sempre com essas “coisas” não palpáveis que fazem a poesia. Em que medida, sobretudo nesta sociedade cada vez mais cercada, pelas tenazes da globalização, para qual todo o interesse e reconhecimento passa pelo dinheiro e/ou sucesso (numa espécie de calvinismo globalizado) e que tende a recusar (até conseguir apropriar-se, tornando-o centro) qualquer sinal de marginalização, se reconhecerá a necessidade de esta mesma sociedade se “auto-marginalizar”, como forma de sobrevivência.

Pelo menos a história ensina-nos e lembra que os verdadeiros intelectuais e/ou poetas, se encontram com mais frequência nas fileiras da marginalização e como refere Henri Jean Martin, “podemos esperar sempre, todavia, que haverá sempre alguém como “Stendhal”, para prosseguir a sua obra no isolamento, esperando que os “happy few” se tornem uma verdadeira comunidade de leitores” e afirmo eu, uma verdadeira comunidade de “marginais”. Naturalmente a poesia actual, trabalha numa dialéctica com a poesia do "passado", sendo uma grande verdade o facto de que a poesia de cada um, se faz também com a poesia dos outros, uma voz é sempre a "voz" de outra vozes, no permanente confronto da criação. Michael Palmer defende que a "boa poesia", terá que ser um instrumento de resistência, mas não "jogando à defesa", antes, explorando sempre um novo território, que terá imediatamente num processo contínuo e ascendente, de ser reexplorado. Como o ciclo da criação, logo que a poesia se torna centro, morre, e imediatamente inicia um novo ciclo de vida, florescendo nas margens da linguagem. Citando o poeta japonês Kawabata Bósha:

Ali nada senão/O torvelinho de um feto:/Este mundo flutuante.

Concluindo, como diria a poeta Ana Hatherly, “inovar é sempre relativo e tanto se pode inovar, com o "novo", como inovar com o antigo, porque a invenção é uma forma de "reinvenção”, mas o “obrigatório” é a poesia transgredir, desconstruindo numa sucessiva construção (para o exterior e simultaneamente para o seu interior)como forma de sonhar, de que os homens acordarão algum dia no outro lado da manhã, satisfeitos com a sua própria incoerência. A poesia como uma experiência na criação do homem, como afirma a polaca Ewa Lipska, tudo depende do “testamento”,

“Testamento”

Após a morte de Deus

abriremos o testamento

para saber

a quem pertence o mundo

e aquela grande armadilha

de homens.

A poesia tal como a linguagem, numa permanente luta de sobrevivência, citando Graça Capinha (1), “lutando contra o corpo da linguagem por uma linguagem que há-de por força ser outro corpo (...) o corpo da linguagem que se constitui como ruptura epistemológica a exigir novos paradigmas, novas racionalidades ainda impossíveis de conceber”. A poesia vê, ouve, sente, pensa, imagina e depois recria mundos (não o mundo). Mas as palavras reproduzidas quando saídas do anonimato e da solidão, criam a sua própria realidade e daí o sonho que a poesia consiga dizer. A sobrevivência da linguagem, da palavra, da vida, do eco. Se não for assim, nada mais valerá a pena.

(1) Coordenadora da Oficina de Poesia da Universidade de Coimbra
 

 



 



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