JOÃO GARÇÃO..

O Castelo dos Destinos Cruzados
- o encontro de três poetas no Alentejo (Castelo de Vide):
Francisco Bugalho, Cristovam Pavia e António Luís Moita

Encontro I

Encontro II

Encontro III

Encontro IV

Encontro I

"Eu, e creio que muitos, busco não o que é verdadeiro em absoluto
mas o que nós somos "

CESARE PAVESE

"Todos os dias, todas as tardes, pelo menos, tomávamos nós, poupadamente, o nosso café, lá descia ele da alta escadaria, fumando o seu cigarro, o chapéu de aba larga, um tanto ou quanto a manzantini - assim a minha deformada memória mo recorda -, ligeiramente derrubado sobre a orelha, o bigodinho retorcido. Atravessava o corredor e desaparecia para lá do guarda-vento. Acabava de almoçar no restaurante mais afamado de Coimbra, aquele onde se dizia ser a cozinha de qualidade e a conta de razoável preço...

Não sei como, não me recordo graças a quem, mas o certo é que esse moço, que vestia fatos de bom corte, entrou na nossa roda." .

O jovem a quem João Gaspar Simões faz referência nascera no Porto em 1905 e era um dos poucos estudantes coimbrões a frequentar o primeiro andar da pastelaria-cafe Central, local onde a tertúlia da revista Presença habitualmente se reunia. De seu nome Francisco José Lahmeyer Bugalho - Lahmeyer, nome de ascendência germânica pois seu pai era alemão - estava em Coimbra a cursar Direito e ligava-se desta forma aos presencistas, grupo onde, além do citado Gaspar Simões, pontificavam os nomes de José Régio e Branquinho da Fonseca.

A primeira colaboração de Francisco Bugalho, em prosa, apareceu no número 18 da revista, em Janeiro de 1929 ( Detalhe de uma Novela ). A sua poesia, por outro lado, demonstrando uma sensibilidade muito sincera e profundamente humana, encontrava-se de acordo com os preceitos teóricos defendidos pelos homens da Presença, os quais advogavam uma arte "verdadeira e intima". Independentemente do antagonismo de posições que a sua poesia suscitou aquando da discussão que sobre ela o grupo empreendeu, a verdade é que em Dezembro desse mesmo ano já a folha coimbrã trazia a sua estreia poética ( Obsessão ).

Aquando desse acontecimento, Francisco Bugalho "vivia sobre si, proprietário de uma grande quinta no Alto-Alentejo". Aí lhe haviam sucessivamente falecido os pais e uma irmã ainda bastante nova, pelo que o poeta, nas férias, residia habitualmente dentro da vila com uma prima de idade avançada - a propriedade, a "Quinta das Palmeiras", fica a um par de quilómetros de Castelo de Vide.

Francisco Bugalho é normalmente apelidado de "poeta da calma melancolia alentejana" , em cuja poesia se nota um acento lírico vibrante "numa ansiedade insatisfeita de identificação com nesgas de paisagem, sobretudo da bucólica alentejana" . Poemas como Rega (“Longa, lenta, melancólica,/ Cantou a velha canção/ a nora triste da horta./ E uns brados ares de bucólica/ -Oh, lírica solidão! -/ Bateram à minha porta.[...]" ) ou Meio-Dia (" Céu baço. Quente quebranto/ se espalha no longe, enquanto/ Cantam cigarras à roda... [...]" ), entre outros de temática semelhante, contribuem para que essa classificação facilmente se transforme em cómoda etiquetagem com a realização de leituras apenas superficiais. José Régio, seu grande amigo - Régio dedicou-lhe a célebre Toada de Portalegre - já em 1931 alertou para a riqueza poética que Francisco Bugalho oferecia no seu primeiro livro, Margens (1931), dado a lume sob a chancela das "Edições Presença". O autor de Poemas de Deus e do Diabo frisou o cunho intimista e nada academicizante da sua poesia: "Não grande livro, decerto, se nesse livro subtil e simples procurarmos o que nos não procurou dar (interrogações, intuições, soluções (?!) sobre o mistério do homem e o da sua posição no Universo), o livro de Francisco Bugalho é notável pela graça, pela discrição, pela frescura, pela sinceridade. Sabe bem, ao fim duma discussão metafísica, dobrarmo-nos a cheirar uma flor sobre a própria terra-mãe ; ou a beber água da própria nascente, depois duma orgia".

Mas os poemas de Francisco Bugalho são, a meu ver, bem mais que um simples refrigério intelectual. Se a poesia não é sentimentos mas experiências, como disse Rainer Maria Rilke e que "por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã" , compreender-se-á que a "modéstia" - palavra empregue por Régio - mais não é do que a permanência de uma poesia sem qualquer característica cénica ; ou seja, a poesia de Francisco Bugalho é uma poesia autenticamente pujante, que se não confessa aos maneirismos e modernismos da época, dando-se de uma forma espontânea e total quando fala das pequenas (?) coisas do quotidiano: a beleza de uma paisagem, o passar inexorável do Tempo, as principais actividades da vida agrícola, enfim, o cumprimento da passagem pela terra de homens e de animais. É esta a poesia que Francisco Bugalho nos deu em Margens, concordando eu inteiramente com Fernando J.B. Martinho quando este refere que o seu valor não tem sido suficientemente salientado.

Depois de haver demandado Lisboa em busca da conclusão do curso que em Coimbra lhe tardava, Francisco Bugalho regressou definitivamente a Castelo de Vide para aí exercer o cargo de Conservador do Registo Civil, dedicando-se simultaneamente à lavoura. Este carácter "bipolar" da sua vida - homem de poesia e homem prático - assume-o Francisco Bugalho nos seus versos: " Poeta sempre em luta vã contigo,/ Que sofres de já seres aquilo que não és,/ Que sofres de não seres aquilo que queres ser...(...)." .

Quando voltou ao Alentejo já o autor de Margens tinha um filho, fruto da sua união com Guilhermina Mimoso Flores Bugalho. Este menino ficaria conhecido pelo pseudónimo de Cristóvam Pavia. De seu nome Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, havia nascido em Lisboa, na freguesia de Alcântara, a 7 de Outubro de 1933. Francisco Bugalho, no dizer de David Mourão-Ferreira " um Conde de Monsaraz sem pitoresco, um Fialho de Almeida sem dramatismos, um Mário Beirão sem veleidades épicas " compartilharia, pois, com seu filho - pelo menos na primeira idade deste - esse microcosmos rural que ambos, de maneira muito pessoal, intuíram e expressaram de forma muito bela.

 
 

 




 



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