JOÃO GARÇÃO
A cidade-jardim

Encostou-se à porta de entrada e fechou-a, recuando lentamente. Para melhor se concentrar, olhou em frente para as escadas envoltas em penumbra e escutou o ruído dos motores e das vozes que, poucos metros atrás de si, ora se aproximavam ora se afastavam. Não se ouviam gritos ou correrias. Manteve-se imóvel e em silêncio por mais alguns momentos, após o que recriou mentalmente o som do breve grito que antecedera a queda. Achou muito mais desagradável o som do corpo a embater repetidamente contra a madeira das escadas e por isso afastou daí o pensamento. Aproximou-se então do cimo das escadas e perscrutou o corredor situado ao fundo destas. Pareceu-lhe que estava enroscada sobre si própria, em posição fetal. Mas, para ver melhor, teria que abrir a porta da rua ou acender a luz do hall. Respirou fundo e retrocedeu para o seu quarto. Limpou o suor da fronte, com toalhetes húmidos e sentou-se à secretária. Pegou no livro que estava sobre ela, abriu-o mas levantou-se quase imediatamente e olhou-se de cima abaixo ao espelho do guarda-fatos. Sorriu-se, como para se encorajar. Pôs desodorizante, perfumou-se e mudou de camisa, escolhendo uma Triple Marfel branca, de excelente linho. Olhou mais uma vez para o fundo das escadas antes de sair de casa, fechando rápida, mas suavemente a porta.

Eram onze e meia. Talvez fosse já almoçar. Logo veria, não estava com grande vontade de andar de um lado para o outro para saber qual era a cantina que estava de serviço. Passou num quiosque e observou as primeiras páginas dos jornais expostos. Comprou um semanário cuja revista trazia uma reportagem sobre Frank Lloyd Wright. Folheou-a enquanto caminhava. As mesmas imagens de sempre, a Casa da Cascata, o Museu Guggenheim, as Fábricas Johnson. E a já habitual referência, curta, a Boadacre City como a inevitável utopia do génio. Entretanto, gritaram-lhe o seu nome, pelo que se voltou.

Um colega cumprimentou-o, perguntando-lhe se ia almoçar. Caminharam juntos em direcção à cantina de serviço, debatendo os problemas com que ambos se confrontavam nesse final de curso.

“ Ebenezer Howard - Garden-Cities of Tomorrow - London-1946”. “- Mas é reedição. Já estou a relê-lo...aproveito as noites, que está mais fresco...”

Passou todo o almoço incomodado por esse colega lhe ter recordado que o professor da disciplina de ‘Seminário III’ certamente não iria gostar do tema que escolhera para o trabalho final. De certeza que iria ter problemas!... Esta indisposição, tanto maior quanto mais reflectia no assunto, transferiu-se para a questão da sua Senhoria, ao pensar no que sucedera nessa manhã. E se ela, afinal, ainda estivesse viva e tivesse conseguido pedir ajuda?... Não, era pouco provável. A queda fora grande e ela já tinha uma idade considerável. Só com muito azar é que ainda estaria a respirar...

Olhou o relógio: um quarto para a uma. Boa hora para ir para casa e telefonar para o 112. Mas só depois de tomar café, pois sem a bica depois do almoço sentia que quase não conseguia raciocinar correctamente. Entregaram os tabuleiros e saíram em direcção à esplanada. Apesar de desejar estar mais tempo sentado sob o guarda-sol, sobretudo por antever a subida penosa que o aguardava devido ao calor sufocante desse dia, despediu-se do colega.

Quando abriu a porta da sua casa, sentiu logo quão fresca ela estava, em contraste com o calor do exterior. No entanto, aquela frescura não lhe agradou tanto quanto habitualmente. Era como se aquele corpo estendido no andar de baixo a maculasse e ele respirasse, igualmente, o odor da morte. Não, decididamente, não lhe agradou mesmo nada.

Respirou lentamente, o mínimo possível e procurou escutar qualquer ruído que proviesse da cave. Nada. Assim sendo, acendeu o isqueiro e iniciou a descida.

Fruta, peixe e pão estavam espalhados pelas escadas. Poisou os pés com o máximo cuidado, não fosse escorregar nalguma laranja e desequilibrar-se, caindo sobre o vulto que se encontrava lá ao fundo. Afastou com o pé um saco de rede onde ainda se encontravam algumas verduras e aproximou-se do corpo inerte. Estava morta, evidentemente. E, afinal, não estava em posição fetal, mas deitada de bruços, com os braços sob o corpo e uma das pernas encolhida.. Ao subir novamente as escadas, voltou-se ainda. “ - ‘Poisson d’Avril’ em pleno Agosto” - pensou com um sorriso nos lábios pois, caprichosamente, um carapau tinha-lhe aterrado nas costas. Depois de fazer o telefonema, voltou às escadas e apanhou uma maçã, que comeu com deleite enquanto esperava.

“ - E agora, o que é que está a pensar fazer? Arranja outra casa?” - perguntou-lhe o polícia, à despedida, após cumpridas as inevitáveis formalidades.

“ - Não sei bem, fui apanhado de surpresa por este infeliz acidente, como compreende. Quero ver se acabo o curso no próximo mês... Se me ponho agora com mudanças de casa, perco um tempo precioso. Está a ver a minha situação...” - respondeu, procurando fazer-se compreender e mostrando-se injustamente tratado pelo destino, tendo recebido a anuência do agente com um sentido “pois é, é uma chatice...”.

Nessa noite, enquanto lia uma obra sobre a ‘Cidade Oceano’ de Kiyonori Kikutake, não conseguiu deixar de constatar que as torres da maqueta apresentadas numa fotografia eram muito, mesmo muito parecidas com os rolos que a sua Senhoria utilizava no cabelo, nos domingos de manhã, quando o despertava para lhe perguntar se desejava tomar o pequeno-almoço…

 

João Garção

 

 




 



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