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OS POETAS TAMBÉM MORREM
Maria Estela Guedes





José António Gonçalves

Os dez poemas que neste momento constituem a representação de José António Gonçalves no TriploV, destinavam-se à publicação esta semana, o mais tardar para a próxima, mas sem o meu texto a acompanhá-los, feito uma bengala triste. Infelizmente, a Indesejada meteu-se pelo meio de uma colaboração que ia começar.

Tinha eu convidado o poeta madeirense, membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores, presidente da Associação de Escritores da Madeira, ou JAG, a mandar de 10 a 12 poemas para abrir o seu directório, e a assinar uma rubrica em que apresentasse poetas portugueses, já que no ciberespaço essa era a sua grande actividade literária: muito frequentemente enviava por email um blog com poemas e imagens de autores de toda a parte, debaixo do título "Poesia dos Calendários", que ultimamente trazia como subtítulo "Arte de Delphos".

Só quem anda aqui em cima, no céu, como costumo dizer, sabe quantas horas são precisas para pôr um sítio no ar, mas era claro que JAG dispensava esse tempo com júbilo e jubilosamente se recreava numa criação plástica capaz de envergonhar o arco-íris e numa actividade poética para cujo fôlego não teriam pulmões as pitonisas de Apolo, no famoso oráculo de Delfos. Quem produz assim torrencialmente está longe da morte, de resto os poetas não morrem, apenas deixam de oferecer inéditos aos amigos.

Pedi eu isso a JAG, convencida de que a sua ajuda me resolveria quase todos os problemas poéticos - criar uma antologia de poetas portugueses no TriploV, que pudesse ser representativa para os nossos colaboradores e leitores estrangeiros -, e ele respondeu logo, afectuoso e interessado:

Olá, Estela, mas é claro que a minha amiga pode contar comigo. Não sei elaborar o «directório», mas mando de seguida dez poemas dentro de uma mesma linha temática (na abordagem a outros poetas). Quanto à outra parte, preciso de mais dados (quantos poemas de cada autor; biobibliografias, épocas). Todavia, por ora ando um pouco ocupado com diversos afazeres, mas aceito, com muito gosto, colaborar. Segue também um retrato com que me distinguiu, recentemente, o poeta e pintor brasileiro, Celito Medeiros e uma «síntese» biobibliográfica. Beijinhos, JAG

Dois ou três dias depois recebo a notícia da morte súbita do Poeta, colada à morte lenta do Papa, e não há que duvidar: por muito santos que ambos sejam, e ambos pontificam de diversa maneira no mundo religioso que nos resta, eles morrem. Eles morrem, nós também morremos.

E não, quando deixamos de rezar missas e de escrever poemas, fica o terreno aberto à leitura. Morto o poeta, viva a Poesia!

A DEUSA DOS GRANDES LAGOS

Aconchega-te no meu ombro. Deste-me o vinho
a beber, com o seu sabor a mel, doce como o mais
puro licor e eu fiz-te a vontade. Escorre-te em riachos
pelo teu corpo, como uma água em busca do lugar
em que se irá abraçar aos rios infinitos, ao mar imenso,
como fios de luz - talvez lágrimas de luar - nas escarpas
onde se enfeitiçam almas com o fumo do incenso. Fecho
os olhos, aspirando essa nuvem de neblina espiritual,
sonhando despertar os lagares em Dezembro ou Março,
só para dar continuidade ao ritual e escutar o canto da uva,
na sua lenta metamorfose para o estado de líquido, pronto
a fermentar. Debaixo dos pés de homens e mulheres,
com rosto intemporal, embutido na terra, nos nós da madeira,
há um cântico crescendo em coro, na voz do sangue dos bagos
esmagados. Pensando nisso, sinto que vou adormecendo,
aos poucos, entre as tuas mãos, com os lábios ainda húmidos
e sonhando com a tua pele, branca, como se fosses uma fada,
dotada de toda a sabedoria, a silenciosa deusa dos grandes lagos.
Olha, cedo. Faz como quiseres, meu amor. Não te pergunto mais nada.

José António Gonçalves

 




 



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