FILIPE MARINHEIRO
Filipe Marinheiro (Portugal, 1982). No liceu seguiu o agrupamento de humanidades, licenciando-se em Gestão de Marketing pelo Ipam Aveiro entre 2001-2006, antes do processo de Bolonha, e publicou o primeiro livro, “Um Cândido Dilúvio - Acto I e Sombras em Derivas - Acto II”, em Março de 2013 e «Silêncios» em Dezembro de 2013. E agora durante o mês de Dezembro de 2014 a sua nova obra «Noutros Rostos».
Noutros rostos

I 

lamento a luz a escorrer no espelho

que me suspende na palavra brava

 

II 

amo o coração do mar azul prata

a comoção das suas ondas nada pesam

nas mãos

 

III 

os meus cabelos matinais

pertencem à frescura desse mar

 

e todo o rosto rijo entardece

o azul celeste das águas a lerem

o que jamais alguém irá perceber...

 

IV 

permito ao mar

que incendeie a luz ébria

nas veias desse outro espelho

 

e o desejo do espelho

entorna-se ultravioleta

 

espelho ousado na nossa alegria 

 

V 

a saliência na pele dourada do mar

desloca-se à pressa

para me acalmar na branquíssima

espessura suave

 

e ser a palavra

que me ordena por dentro 

 

VI 

bebo

agora a luz remendada

 

e espero ser aquele que caminha hirto

de calças bem justinhas e curtinhas

 

embrulhado num velhíssimo casaco

comprido a tapar-me a cara

na sua plenitude errante

 

os sapatos mordidos pelo ar e terra

que se respira...

e o meio dos joelhos

a arderem de novas ideias

 

e lá vou por aí adiante

a fumar vagarosamente

o meu esguio cachimbo

e tudo o mais que por aí vem...

 

– talvez uma carnificina...

– talvez uma tempestade

de neve polar...

– talvez um estremecimento

no sol adentro...

– talvez hipnotize a lua...

– talvez toque um tufão...

– talvez invente um novo relógio

cujos ponteiros andem para trás...

– talvez esmague o teu rosto...

– talvez abrace

as mãos do senhor herberto helder...

– talvez o senhor herberto helder

me ensine o ofício da poesia...

– talvez a minha inquieta poesia

rache o fundo da cabeça

do senhor herberto...

– talvez lhe devolva a rosa esquerda

coroando as suas transparentes barbas...

– talvez o senhor herberto helder...

nem saiba que eu existo

nem que de poesia nada eu sei

então do ser poeta menos ainda...

– talvez o senhor herberto até goste

dalgumas coisas que escrevo...

– talvez não goste de nada...

– talvez me despreze

a todo o momento...

– talvez tenha curiosidade

de me conhecer tal como sou...

– talvez ele queira observar

o meu cachimbo à rimbaud

e fume comigo às escondidas

no silêncio das coisas

e fiquemos somente a olhar um

para o outro por amiga telepatia

quem sabe se ele fala comigo

e eu com ele enquanto dormimos

cada um na sua casta

casa anónima...

– talvez o senhor herberto helder

me queira iluminar os dedos

rasgando-os um por um

e os coloque no seu estendal

bem erguidos

para que a merda deste mundo

os veja através duns binóculos

meio sujos

 

e os dedos a saltitar felizes

são o mundo poético

são a esperança a irromper

por fora e por dentro

e que alguma merda mude!... 

 

está a trovejar

no interior do nosso corpo

que se foda...

 

à nossa volta é tudo uma miséria

é tudo muito triste de se assistir 

 

eles que se fodam literalmente

porque bem fodidos já o estão

sem se aperceberem disso mesmo

 

e é triste saber

que o mundo é velho demais

e que nunca mudará para melhor

porque é um pretexto em si

mesmo...

 

– talvez ó senhor herberto

nos ouçam

o ouçam

o percebam

e tenho dito...

 

– talvez nunca conheça o senhor

herberto é nisso que creio

se porventura o conhecer

já poderei morrer descansado...

– talvez já nos tenhamos conhecido

noutras derivas

noutras vidas melhores...

– talvez as nossas cinzas

de ossos esfarelados mergulhem

no mesmo mar ou galáxia ou estrela

ou cometa ou astro ou meteorito

ou asteróide ou numa qualquer

merda tanto nos faz penso eu!...

seja!...

– talvez comece a chorar estrelas

profundas a brilhar...

– talvez no chão me inunde

e morra espalmado

ao mesmo tempo que sorrio...

– talvez desordene a poesia

e os corpos por nascer...

– talvez tudo seja uma ilusão

medíocre e nada disto aconteça...!

 

e não me vejam... ... ...

 

VII 

as entranhas sacodem

com violenta força todo o corpo

 

que quer fugir para bem longe

porque o mar é um secreto altar

 

e colhe-me como água e luz

prendo-o como palavra

à melancólica poesia

 

lá vou eu

hurra... hurra... hurra...

sei de teres um saco que fala sobre o sono ainda misturado

num copo em brasas

curioso por bater

com a minha sombra diante à criatividade desse saco

nele intercepto mensagens alheias das noites cheias de fins

ou acasos

todos nos dizem para cantar sob o carreiro gélido

onde verdes árvores lá fora se revelam na voz de silicone

por trás das portas a despenhar-se sobre cadeiras retiradas

contra os buracos negros

enquanto mesas se entrançam no ar às voltas

como respiro e interrompo

trepando o fumo trôpego dos garfos e talheres confusos

a romperem os sóbrios guardanapos de tecido diamante

derretendo-se na luz que flutua leve

talheres no princípio

garfos no cume empoleirados no pano rústico preso à jarra

que toca a melodia desaparecida

que esmaga as mesas

que torce a voz contra as portas

que toca a própria mão alastrando o saco

e se bebe na loucura nocturna

o soalho de madeira rubi ressente-se entre os rolos de árvores

e baloiços de folhas afrodisíacas

a amolecerem espantadíssimas nas sobrancelhas queimadas

com imagens panorâmicas do saco

como a rodar nos rodapés que explodem dentro dos vernizes

a espalharem-se p’la poeira das vidraças terríveis

os relógios fumam os céus indignados aceitando-se corajosos

e reles vistos à lupa

o sol de aço corta a vista como os seus raios de fogo cortam

as mãos

o fogo cresce

aumenta o sangue largo

enquanto labareda a roçar no coração

e o coração insufla e inflama o corpo que se ergue

e estanca o lume

manuscritos voam em cima dos pratos

os pratos compostos por tintas em escada finalizam-se à vista

sombrios e tristes

desde a força profunda das mesas

até se coserem às secretas portas

que fervem o trilhado coração do saco aos pedaços

de fibras entranhadas

escorrendo à volta dos corpos

desenhos de luvas

peúgas originais retratos folhas plantas

gaiolas por baixo de alcatifas submersas

cigarros dentro uns nos outros onde a água trabalha

e escalda esse pressagioso ofício

um castanho cavalo gira perto do iminente sofá

e o cavalo cavalga dentro das paredes

a estoirar a ventania obscura

e engole

uma almofada de acre vinho

e no próprio relinchar como desabrocha!

tapeçarias de névoas esvoaçam entre fragilidade e angústias

via o saco a inundar-se no arame farpado

com que o ergo

até sufocar o amanhecer fusiforme

a saltitar nos nós de sangue

uma breve leveza de ofício

e rasgam-se fissuras na carne como outra carne funda

e ensanguentada

em estado de choque

assim irei aprender também trigonometria astrofísica

dos cometas às galáxias inundadas de gravidade

enquanto saco é elevado

nós somos elevados

e arrastamos as imagens de uma ponta à outra

devoramo-nos

na engrenagem atómica

em frente aos vertiginosos olhos anda o saco a pensar nas coisas

o saco desmancha a doçura do pescoço

sangra-o nas mãos vagarosamente

à raiva tão veloz

canta nas fracturas da terra na cabeça movida por circunferências

saco chato dorme a alumiar a escuridão

uma chatice mortal!...

mexe-se aquele saco com pensamentos inquietantes

sei-o inquietante

é mestre e eu o aprendiz

com a cabeça no fundo dos meus joelhos a estilhaçar

devassa os astros

explodindo-os de encontro às estrelas

e todas as altas estrelas bailam na ponta dos dedos pretos prata

a deslizar na coxa dissolvida

contra espirais cadentes os astros são a sonoridade

cantam flores e jarras

e as estrelas o ritmo maldito feito de cera luminosa

em que as trevas vagabundam

nos espelhos rápidos

dentro da penumbra pendidas nos aromas megalíticos

que vão de sabor para sabor

pela aragem abaixo

a levitar na sua matéria enlouquecida

e morde a luz

porque os perfumes celestes

se despedem e diluem o espaço e o tempo

como num avanço e recuo doce

estremecendo as distâncias em tempo irreal

deixo-me cair anterior a esse saco entrançado nas veias adentro

e racho as mãos à velocidade de um galho precioso

na dúvida

alastram-se as abas que dançam

enquanto o saco sufoca numa janela contorcida

deambulo

na opacidade dos espelhos e vidros

que nunca mas nunca falam dele ou de mim

– o saco, por exemplo... 

abrigaram-me na palavra paciente e sincera

 

envolver-me nas lágrimas de girassóis a gemer é como prolongo

a vida

 

até à palavra se amar doce e inocente

como quando corro inesperado seduzindo as letras uma por uma

e sufoco a fecunda escrita na melancolia que é tão minha...

vou contando todas as vidas tristes que se amadurecem

no fundo dos meus olhos a passarem atrás das coisas gastas

em cada rua vazia espero pelo seu sabor mudo

 

e desapareço naquele estremecimento que sai virgem do chão

por onde caminho novamente sombrio

trago da beleza obscura o alimento que me faz viver secreto

e tão distante...

ou a vida é curta e antónimo de amor líquido

ou por agora recolhemo-nos na própria ideia de morte

ó meu novo amor

choro ao recuar a morte prematura contra os robustos estilhaços

do inferno bem visível e a vida compacta correcta morre

às mãos frívolas desta triste humanidade...

porque durante o silêncio da noite tudo respira tranquilo

na mais breve insolvência musical

e na cama ouço a inocência das eternas servidões...

cá vais tu de vértebras nos braços a correr pelo estrangulamento

do ar que te leva que te faz voar com o sangue como asas opacas

mas brilhantes

 

de boca na cabeça e pulmão na barriga tentas seguir uma travessia

exemplar sem erros sobrenaturais

 

os rios são pretos as árvores rasgam as nuvens as plantas sangram

por entre as casas que vais vendo

 

a vida é foneticamente fodida puta da vida mesmo virada de patas

para o ar em labaredas

 

e a vida floresce-te sabiamente...

 

 




 



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