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Por CARLOS PICASSINOS, em Macau
Sexta-feira, 11 de Junho de 2004
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O poeta Eugénio de Andrade vai ser distinguido, em Agosto, com o prémio de poesia da revista literária de Cantão, "Poesia e Homem", que dedica o próximo número, integralmente, ao autor de "Afluentes do Silêncio". Esta é a primeira vez que na China continental uma revista publica uma antologia de um poeta português.

A decisão foi tomada pelo editor da revista, Huang Li Hai, depois de ter lido alguns dos poemas de "Branco no Branco" publicados na revista "Poesia Sino Ocidental" pelo tradutor chinês de Eugénio de Andrade, Yao Jingming, professor do Departamento de Português da Universidade de Macau.

"A ideia de dar o prémio partiu do Huang Li Hai", conta Yao num café de Macau enquanto toma chá. "Ele adora Andrade porque escreve uma poesia semelhante." Diz o tradutor que quando decidiu publicar "Branco no Branco", no número cinco da "Poesia Sino-Ocidental", ficou admirado. "Tive uma surpresa. Muitos poetas meus amigos telefonaram-me a dizer que adoraram a poesia de Eugénio. Era um lirismo muito puro, muito diferente do nosso, muito português. Daí a ideia de fazer uma antologia um pouco maior."

O próximo número da "Poesia e Homem" está organizada em cinco partes e integra a tradução, em chinês, de três livros do poeta - "O Peso da Sombra", "Branco no Branco" e "Outro Nome da Terra" - poemas escolhidos pelo tradutor para o capítulo "Arte de Navegar", e, ainda, alguns textos de Eugénio extraídos da sua obra sobre Macau, "Pequeno Caderno do Oriente". Diz Yao Jinming que o editor da "Poesia e Homem", de Cantão, "conseguiu sentir a beleza da poesia de Eugénio, uma poesia que torna o mundo mais límpido, que tem a força mágica de desvendar os segredos ocultos do mundo, as coisas, os objectos simples da nossa vida. Eugénio acha que a missão da poesia e do poeta é de desvelar o segredo das coisas."

O tradutor sublinha ainda o fascínio de Eugénio de Andrade pelo Oriente. A sua poesia recebe influências do "haiku, um tipo de poesia muito curta, do antigo Japão, que deixa um espaço muito grande à imaginação do leitor. Construções muito sugestivas organizadas em imagens, que se dizem através de imagens".

Mas Eugénio de Andrade também admira poesia chinesa. Em "Branco no Branco", o poeta faz uma referência à poesia chinesa e a Li Bai, o maior poeta da dinastia Tang (618-907), uma das eras mais prósperas da história da China, "um período de ouro".

Yao e "o poeta puro"

A ligação de Yao Jingming à poesia portuguesa e a Eugénio de Andrade começou há cerca de 15 anos, quando se preparava para viver em Lisboa. Estava ele em Pequim quando lhe caiu nas mãos "Coração Habitado". "Encontrei o livro em português, em Pequim, e levei-o para Portugal." Entusiasmou-se e, recorda, "traduzi 50 poemas". Uma pequena antologia. Chamou-lhe "Com palavras amo", que viria mais tarde a ser editado pelo Instituto Cultural de Macau (ICM). "Apresentei esse livro na Missão de Macau, em Lisboa. Foi quando conheci o Eugénio de Andrade. Foi em 1988. Voltei a Pequim, onde fiquei dois anos" até que se instalou em Macau. Acabou por ser convidado para traduzir outro livro de Andrade, "Outro nome da terra", editado pelo ICM, "que não provocou muito impacto na China. Não sei porquê, mas os livros de Macau não circulam muito na China", lamenta.

Em 2001, Yao deslocou-se a Cantão onde tomou contacto com outros poetas "e onde surgiu a ideia de fundar uma revista de poesia. Então pedi o patrocínio ao Instituto Politécnico de Macau e começámos a publicar a 'Poesia Sino-ocidental' para divulgar a nossa atitude poética, com uma parte de poesia estrangeira". Daí à publicação de Eugénio foi um passo. Apesar da distância, a admiração de Yao não se dissipou. "Eu vivo toda a vida para chegar ao verso", cita o tradutor. "Ele vive assim e fez assim. Para mim ele é o puro poeta. Na China, muitos poetas escrevem com objectivos - para ganhar fama ou aderir a um certo círculo. Entendem a poesia como meio, para tirar partido."

Por causa das frágeis condições de saúde do poeta, o prémio será entregue a representantes da Fundação Eugénio de Andrade, na embaixada portuguesa em Pequim.

 
 
 
 
 
 
   
   

 

 

 


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