DOMINGOS DA MOTA
Tríptico e outros poemas
Poética

O verso deve ser duro

como fio de navalha

um relâmpago no escuro

uma faúlha na palha

 

o verso deve ter lume

mas sem fogo-de-artifício

o verso que acera o gume

o verso que apura o vício 

 

[Inédito] 

Tríptico

I 

Por muito que conjectures

sobre o sentido dos passos,

importa que não descures

quando se abrem os braços:

 

se somas ou subtrais                

à causa que nos juntou              

os arremessos verbais               

(que a memória apagou), 

           

algumas ideias loucas,            

pequenos gestos ferozes,

por vezes orelhas moucas         

para a frieza das vozes,

 

eu retenho, sobretudo,

mais que a forma, o conteúdo.

 

II

 

Mas vale a pena dizer

que a forma é importante,

sobretudo se abranger

um conteúdo bastante,

 

pois nisto de conteúdos,

sem falar nos aparentes,

além dos graves e agudos

e com traços divergentes,

 

vê os que trazem também

uma carga de trabalhos

 (para atingi-los há quem

persiga tantos atalhos),

 

que depois de tudo isso

o que perdura é um esquisso. 

 

III

 

O esquisso, o traço, o bosquejo,

o borrão, um simples esboço,

o debuxo do desejo

que irradia até ao osso,

 

talvez sejam tão concretos

para a pintura abstracta

como a expressão dos afectos

através da cor exacta,

 

quando o pintor, com apuro,

molha o pincel na paleta

com as tintas do futuro

(refina a forma secreta),

 

e deixa na sua tela

muito mais que uma aguarela.

 

[Inédito]

Soneto da servidão

Não acrescentes mais, que basta a vida

para impor o agravo, cruamente:

a força de viver, já ressequida;

um passo que se dá, tão dependente;

 

aquilo a que tu chamas de guarida

ser a porta fechada, bruscamente;

e o sopro que mantém a sobrevida

ter um nó na garganta, secamente.

 

Já basta, para insulto, a dependência

que suporta a terrível insolência

daqueles que te acusam de estares vivo;

 

já basta, para o fim, a pouca sorte

de teres de sofrer, mais que o desnorte,

a dura servidão de sobrevivo.

 

[Inédito]

Domingos da Mota

Domingos da Mota – nasceu a 15 de Dezembro de 1946, em Cedrim, Sever do Vouga. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (como trabalhador-estudante). Trabalhou num laboratório da indústria farmacêutica. Reside em V. N. de Gaia. Publicou o livro, Bolsa de Valores e Outros Poemas, Edição Temas Originais, em 2010. Tem poemas dispersos por colectâneas, revistas, jornais, e em diversos sítios do ciberespaço. Dos seus blogues, actualiza com alguma frequência: http://domingosmota.blogspot.com/.

 

 




 



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